Compreendo perfeitamente a razão de ser da “arquitetura funcional” de nossos dias. Quero dizer: compreendo-lhe os princípios. Mas não posso folhear um álbum de história da arquitetura sem que me doa uma viva nostalgia da arquitetura de outras eras. A serenidade, o equilíbrio, o esplendor, a magnitude, a compreensão do humano e do divino, a múltipla harmonia, – dos monumentos arquitetônicos da Grécia antiga, dos grandes séculos medievos, do Renascimento, do período barroco, esplendendo em suas linhas e volumes de beleza eterna nas gravuras magníficas, me levam à repulsa definitiva dos monumentos de hoje.

Arquitetura funcional, sem dúvida: é um reclamo do que há de mais profundo em nosso senso do “edifício”. Do edifício que nasceu de simples impulso utilitário em procura do abrigo e que, portanto, deve ser, antes de tudo mais, abrigo, apresentando adequação perfeita à sua função utilitária. O celeiro deve ser celeiro, desenhado e calculado de maneira a oferecer utilidade completa no sentido de tal destinação específica, e refletindo, com precisão, em suas linhas exteriores, esse ajustamento sem erro. A gare ferroviária, a biblioteca, o palácio de governo, a repartição burocrática, a fábrica, a vivenda, devem ser, antes de tudo mais, gare ferroviária, biblioteca, palácio de governo, repartição burocrática, fábrica, vivenda, – com disposição interna talhada na exata medida da função respectiva e aspecto exterior perfeitamente resultante da mesma disposição interna.

Se refletirmos, contudo, em que é o ser humano, dotado de corpo, mas também de alma imortal, saturado de transcendência, com sede e fome de beleza, de magnitude, de harmonia, – que vive do celeiro, da gare, da biblioteca, da fábrica, etc., perceberemos que os edifícios destinados a esses vários misteres, não estão desempenhando em plenitude sua função, não estão sendo “funcionais”, se se apresentarem despidos de harmonia, de transcendência, de beleza, segundo uma sábia gradação hierárquica que atenda às diferenças de destinação: alguns desses edifícios servem preeminentemente ao homem animal, outros ao homem social, outros ao homem espiritual.

Os teoristas e realizadores da arquitetura funcional moderna, que estão eriçando o mundo (com raríssima exceções) de construções monstruosas e vão com isso barrando os horizontes de alegria da pobre vida terrena, não sabem ver, por exemplo, o seguinte: que uma biblioteca não se destina apenas a abrigar livros, e a proporcionar leitura em grande comodidade; mas também a criar, para o leitor, um ambiente de espiritualidade que o auxilie a erguer-se, nos momentos de leitura, do tédio e do lodo do quotidiano. Isso, na disposição de suas dependências internas. Quanto à sua face exterior, é inegável que deve exprimir, com exatidão, essa natureza profunda, para que, vista de fora, já seja, em verdade, no influxo que exerce sobre o espírito, uma “biblioteca”, vale dizer, um refúgio da inteligência, uma fresca sombra de sabedoria em meio à soalheira dos apetites.

Os criadores das arquiteturas clássicas talvez tenham muita vez esquecido a “função prática” dos edifícios que construíram. Mas os criadores da arquitetura atual esquecem quase sistematicamente a “função transcendente” dos monumentos que levantam.

SILVEIRA, Tasso. Diálogo com as Raízes. Salvador: edições GRD/INL, 1971. Transcrito das páginas 10 e 11.

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