A Semana Santa começa por uma gloria terrena e termina por uma gloria divina. E as duas glorias se manifestam no dia por excelência dedicado ás coisas eternas. São dois domingos: dia do Senhor, para Israel e para a Cristandade, dia de Júpiter para os povos derramados pela carta geográfica do politeísmo pagão.

A liturgia coloca no primeiro dos domingos a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. No segundo, a ressurreição do Cristo. Domingo antes da cruz e domingo depois da cruz. Em ambos, a misteriosa simbologia da vida de todo homem, de todos os povos e de todas as nações. Pois o Cristo, que veio ao mundo, para redimir o gênero humano, e que sendo o filho de Deus é também o filho do homem, sintetiza, ele próprio, o sentido da vida de todo homem assim como de todos os conjuntos de homens que chamamos de povo, ou nação.

E, assim, tomando-se o homem singular, ou o tempo plural, ou genérico, em determinado trecho do tempo histórico, podemos encontrar os mesmos elementos da Paixão do Redentor e enquadrá-los na mesma ordem cronológica do drama ocorrido há dois mil anos em Jerusalém.

Só existe uma diferença: o Cristo carregava os pecados do mundo e por ele sofria, ao passo que cada homem ou cada nação, ou todos os homens e todas as Nações, isto é, o mesmo mundo, carrega os seus próprios pecados e por eles sofre.

E há ainda a distinguir: há homens ou Nações que aproveitam o sofrimento, assim como há os que não o aproveitam, ou por estarem mergulhados na corrosiva impenitência, ou por estarem imersos na anestesiante indiferença.

Mas o que se não pode deixar de observar é o paralelismo do drama humano com o drama divino-humano. E a identidade das situações.

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A Semana Santa começa com o Domino de Ramos. Saindo de Betânia, da casa de Lasáro, o Divino Mestre vai encontrando pela estradas multidões que o aclamam. Homens e mulheres trazem ramos de palmeiras, que se agitam no ar dando a impressão de um verde mar em movimento. Trazem-lhe um gerico, enxareilado com finos panos multicoloridos. É o anima pacifico e trabalhador, que ajuda os lavradores a preparar o campo e deitar a sementeira. Ninguém lembrou de levar algum dia esse humilde animal á guerra. Para as pelejas cruentas, há os ardegos corcéis dos partas e idumeus, os elefantes pesados e violentos. E o Cristo não poderia jamais entrar em guerra corporal com os homens, ainda que tenha vindo fazer o homem declarar guerra a si mesmo.

A entrada de Jerusalém, outra multidão vem ao seu encontro. Saúda-o com hosanas, extende-lhe o os mantos para que ele passe por cima deles. O préstito triunfal entra pelo vale de Tiropeon, que é o bairro dos operários, dos estrangeiros e dos pobres. Crescem as aclamações, as quais se juntam as vozes cristalinas das crianças. 

Quando o cortejo atinge os bairros mais ricos e elegantes, aqueles onde moram os potentados, os granfinos, os altos funcionários, os opulentos comerciantes, os militares ilustres, os juízes orgulhosos, os letrados que impam de vaidade, muitas vozes perguntam: – ”Quem é esse?” E os homens do povo respondem: – ”É Jesus de Nazaré!”

Essa passagem do Evangelho nos leva a corrigir o conceito que temos formado dos habitantes de Jerusalém. A estes se atribui tão grande versatilidade das aclamações entusiásticas á repulsa total, ás vaias vilipendiadoras, á agressividade assassina. No entanto, aquela pergunta nos leva a crer que a multidão que o aclamou o Cristo não foi a mesma que o condenou, a mesma que preferiu Barrabás, a mesma que crucificou a Jesus.

O povo que condenou e matou o Divino Mestre foi o povo da cidade, foram os habitantes de Jerusalém. O povo que aclamou e  vitoriou Jesus foi o povo do interior, o povo das montanhas e dos vales da Judéia, da Galiléia, da Samaria, da Traconitida, de Decapole, agricultores e pastores, ou gente simples das aldeias ou pequenas cidades que se achava ocasionalmente em Jerusalém, para a festa da Páscoa. Quando os acontecimentos se precipitaram e o governo, apoiado pelos habitantes da Capital, compeliu o Procurador Romano a intervir com seu poder e seus soldados, toda essa gente humilde e desarmada, tremendo diante das lanças e dos gládios da força pública, tresmalhou e fugiu, deixando em campo tão somente os inimigos de Jesus.

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Em todos os tempos seria assim. E não há episódio mais parecido com esse do que o de 9 termidor, em Paris. Na noite daquele dia, uma grande multidão libertava Robespierre e a Convenção Nacional julgava-se perdida; pela madrugada, tudo mudava e, pouco depois, o ”incorruptível”, ídolo das massas revolucionários, era levado a guilhotina.

Naquele Domingo, de qualquer forma, Jesus foi exaltado pelos homens, conheceu a glória do mundo, que se traduz nas palmas e nos vivas das multidões, nos desfiles grandiosos, no estrondar das ovações imponentes. E conheceu essa espécie de triunfo, talvez mesmo para nos mostrar, a cada um de nós, homens, e a todos nós quando constituídos em Nações, como são falíveis, perecedoras, precárias as glorias da terra. A Glória verdadeira, imortal, Ele viria conhecer no domingo seguinte. 

Esta segunda espécie de gloria, entretanto, custa um preço elevadíssimo. A Jesus custou o imenso desconforto da discussão com os perversos fariseus á porta do Templo, conforme no-la reproduz João no seu evangelho. Custou-lhe as lágrimas que derramou diante de Jerusalém, antevendo a sua destruição, que se daria trinta e oito anos mais tarde. Custou-lhe as horas comovidas da despedida no Cenáculo e as horas angustiantes no Horto das Oliveiras, quando, a derramar suores de sangue, sorveu o cálice da Amargura. Custou-lhe a dor de ser traído por Judas. Custou-lhe a prisão, os penosos interrogatórios, as bofetadas e escarros na face, a longa noite de trágica vigília, em que as negações de Pedro vibra no espaço, ao canto rítmico dos galos. Custou-lhe a flagelação, a coroa de espinhos, a preferência do povo por Barrabás. Custou-lhe a marcha dolorosa, carregando a sua Cruz, os tombos sob o peso do madeiro, o encontro com sua Mãe, a subida aspérrima do Calvário. Custou-lhe a crucificação, os impropérios  dos seus inimigos, as blasfêmia do mau ladrão, a sede exasperante a esponja com fel e vinagre, e por fim a morte.

E tendo pago tudo isso, como o mercador da sua parábola que vendeu tudo quando tinha para comprar a pedra preciosa, colheu na madrugada do domingo seguinte, a Glória Divina, aquela glória que os homens não podem dar, porém não podem atrair como instrumentos de Deus nas decisivas experiências da dor que eles provocam amargurando, afligindo, oprimindo, massacrando a todo aquele que marcha na direção das culminâncias eternas onde desabrocha a flor do martírio.

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Por todo o sempre, o Homem ou os homens, as Nações ou a Humanidade terão também o seu Domingo de Ramos e o se Domingo da Ressurreição.

Agora, por exemplo, vivemos na grande semana de trevas da nossa Civilização. Essa semana que se pode denominar um século e que principia pela glória que o homens deram aos homens e que precisa terminar pela glória que Deus dá aos homens.

O alvorecer deste século foi a glorificação da nossa civilização mecânica. O grande domingo foi a Exposição de Paris de 1900. Todas as industrias ali se representaram. Todas as artes. Todas as ciências. Todos os orgulhos. A Cidade resplandeceu iluminada. Os Reis, os Chefes de Estado, compareceram com seus lusidos séquitos. Abria-se uma era de paz e de prosperidade. E todos acreditavam que a Ciência iria trazer a fartura e a harmonia entre os povos. As vozes dos Sábios erguiam-se para proclamar que a técnica traria finalmente a Idade de Ouro para os povos. E, assim, após esse domingo, entramos na Semana Trágica, principiada com a Primeira Grande Guerra, continuada com a Revolução Bolchevista na Rússia e sua irradiação pelo mundo, prosseguida com as loucuras racistas e super-nacionalistas do nazismo e com a paranóia do liberalismo democrático. E tivemos a Segunda Grande Guerra, com todas as suas desgraças. E, após a catástrofe, a escravidão dos povos pela Rússia Soviética, as agitações em todos os países, o desequilíbrio econômico, as crises sociais, a desmoralização dos costumes, o desespero dos pobres e as orgias dos ricos, e, por toda a parte, a confusão total.

O Cristo morre gloriosamente. Mas a nossa civilização está morrendo sem grandeza. Porque, a despeito de todas as desilusões e decepções, ainda quer acreditar na perenidade daquela glória de 1900, desdenhando o valor do próprio sofrimento que está sofrendo e que constitui o preço da Glória Divina.

Eis porque, no transcurso desde dias em que se rememora a paixão de Cristo, outra oração não temos a fazer-lhe senão aquela em que lhe peçamos a Ressurreição desta Civilização que está agonizando. Que o Redentor do Mundo favoreça os homens do nosso tempo com as luzes necessárias, a fim de que possam saber utilizar as suas dores como divina moeda com que hajam de comprar a glória de uma Vida Nova em que a posteridade possa enfim se feliz integrando-se no seu Destino Supremo.

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SALGADO, Plínio. ”A tua cruz senhor… e outros escritos”. Livraria Clássica Brasileira: 1954 – Rio de Janeiro.

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