A esquadra e a Nação

O dia 9 de março de 1500 amanheceu festivo em Lisboa. Grande esquadra estava fundeada no Tejo, em frente à ermida do Restelo. Eram dez naus e três navios pequenos.

Na ermida celebrava-se missa solene, com a presença do Rei, do comandante da esquadra e demais chefes de naus. O Bispo, revestido de paramentos bordados a ouro, pronunciou um sermão. O comandante da esquadra recebeu das mãos do Rei a bandeira da Ordem de Cristo. Organizou-se imponente procissão até à praia, onde os nautas se despediram

Os mistérios da História

Para onde vão aqueles navios cuja partida constitui uma festa nacional? Dizem que se dirigem às Índias. Conjetura-se, porém à meia voz, ser outra a missão da esquadra. Talvez a posse das terras do Ocidente, vencendo as 370 léguas além de Cabo Verde, assinaladas pelo Tratado de Tordesilhas. Tais murmúrios são de supor-se face a documentos chegados até nós, como aquela ordem de D. Manuel a Duarte Pacheco Pereira, dada em 1494, para que, navegando na direção ocidental, ”ultrapassasse a grandeza do mar-oceano” chegando ao local ”onde é achada terra firme”.

O comando da esquadra

Comanda a esquadra Pedro Álvares Cabral, senhor de Belmonte, que de El-Rei colhe instruções e de Vasco da Gama conselhos. As demais naus são comandadas por Simão de Tovar, Pedro de Ataíde, Bartolomeu dias, Diogo Dias, Nuno Leitão, Nicolau Coelho, Simão de Miranda, Vasco de Ataíde, Luis Pires, Aires da Silva, Simão de Pina e Gaspar de Lemos

Rumo ao Oeste

No dia 14 chegam às ilhas Canárias, a 22 ancoram no arquipélago de Cabo Verde. Dai por diante seguem na direção de sudoeste mas, em meados de abril, la latitude de 17 graus e distanciadíssimos da África, tomam resolutamente rumo a Oeste. Desistiam de dobrar o Cabo da Boa Esperança e ir às Índias? Tudo nos leva a crer que sabiam da existência de uma terra no Ocidente, a qual devia estar próxima.

O Descobrimento 

A 21 de abril surgem sinais de terra, no dia 22, aparecem aves pela manhã; à tarde os nautas avistam um monte e ao sul dele terra plana com arvoredos. Deu Cabral ao monte o de Pascoal e à terra o de Vera Cruz. Verificam ser a terra abitada por gente nua com cintos de penas. No dia 24, a armada encontra um porto de bom abrigo. A espaçosa baía é denominada Porto Seguro.

A 26 de abril, celebra-se missa numa pequena ilha, a 1º de maio é celebrada outra em terra firme. É erigido o padrão de posse de Portugal.

Prestação de contas

Cabral faz regressar a Lisboa a nau de Gaspar de Lemos. Vai levar a D. Manuel a noticia de que a missão fora cumprida através da Carta de Pero Vaz de Caminha. Tudo indica não se tratar de outra coisa, pois hoje está desfeita a lenda de que o Brasil foi descoberto por acaso.

Desmantelamento da esquadra de Cabral

A armada seguiu para as Índias. Das treze naus regressaram a Lisboa apenas quatro. As demais pereceram em naufrágios ou se extraviaram.

Últimos dias do Descobridor do Brasil

D. Manuel recebeu Cabral com grande júbilo. Algum tempo depois, preparou uma armada de 20 navios escolhendo o descobridor do Brasil para comandante, a fim de consolidar o prestigio português nas Índias. Compunha-se a esquadra de três divisões. Tendo o Rei dado poderes excessivos ao comandante da segunda, Cabral rejeitou a nomeação. O Rei zangou-se e não quis saber de Cabral mais para nada. Com uma pensão de trinta mil réis por ano, Cabral retirou-se para Santarém, onde morreu em 1520.

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Elucidário

Restelo – Antigo nome do local hoje denominado Belém, em Lisboa. Ali o Infante D. Henrique fez construir uma ermida. Daquele local partiam as grandes navegações.

Pero Vaz de Caminha – Pouco se sabe da vida desse homem que foi verdadeiramente o iniciador da História do Brasil. Apenas se conhece o nome do pais (Vasco Fernandes Caminha) e sabe-se que Pero Vaz era natural do Porto, onde exercia o modesto oficio de mestre da balança da Casa da Moeda. Entrou para a frota de Cabral como escrivão. Escreveu a D. Manuel a famosa carta de 1º de maio de 1500, em que relata o descobrimento do Brasil. Essa carta permaneceu inédita durante 300 anos, pois só em 1817 Aires do Casal publicou na sua ”Corografia Brasileira”. Segundo Souza Viterbo, Caminha morreu na Índia.

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SALGADO, Plínio. Dois mundo se encontram. In: HISTÓRIA do Brasil: Volume I. São Paulo: Editora FTD, 1970. cap. V – Descobrimento do Brasil, p. 39-45.

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