General Olímpio Mourão Filho em entrevista pelo aniversário de um ano da Revolução de 1964, em março de 1965 (foto autoria de Jorge Couri).

Neste quinquagésimo sexto aniversário da Revolução de 31 de Março, publicamos em nosso site a breve porém excelente biografia do General Olympio Mourão Filho postada pela página “Guerra Cultural” em 28 de Maio de 2018.

Muito do que ele escreveu pode ser aproveitado nos dias de hoje. Mourão ganhou fama de impulsivo e boquirroto. Alguns o caricaturavam em razão do seu estilo folclórico. Tinha um vozeirão desproporcional à sua modesta estatura. O cachimbo valeu-lhe o apelido de Popeye. Mas quem era este polêmico general?

A INFÂNCIA, OS PRIMEIROS ANOS NO EXÉRCITO E A REVOLUÇÃO DE 1930

Olímpio Mourão Filho nasceu na cidade de Diamantina (MG), em 9 de maio de 1900. Era o 15º filho da fecunda união matrimonial selada entre a Profa. Mariana Corrêa Rabelo e o Senador Olímpio Júlio de Oliveira Mourão, naquela época idílica em que os casamentos duravam para sempre e as mulheres tinham vários filhos, todos do mesmo pai. Recebeu formação católica no Seminário Sagrado Coração de Jesus e graduou-se na Escola Militar do Realengo (1918-1921), onde optou pela arma da Infantaria. Como 2º Tenente, teve a felicidade de servir no 12º Regimento de Infantaria (1921-1922), no seu Estado natal, sendo depois transferido para o 14º Batalhão de Caçadores, em Florianópolis. Lá permaneceu quase três anos (1923-1925), no decurso dos quais foi promovido a 1º Tenente. Cursou a ESAO em 1926 e depois reincorporou-se às fileiras do referido batalhão, que teve-o em seus quadros por mais um biênio (1927-1928).

Evoluindo rapidamente na sua formação, rumou para o Rio de Janeiro em 1928, agora como aluno da ECEME. Desta época data sua aproximação com os próceres do Tenentismo, dos quais se mantivera afastado até então, e seus contatos com os civis e militares que deflagrariam a Revolução de 1930. O 1º Tenente Mourão Filho envolveu-se ativamente na preparação e execução do movimento. Tão logo o Presidente Washington Luiz foi deposto, a junta provisória instalada na capital atribuiu ao oficial mineiro a missão de ir à sua terra natal para avisar ao Governador Olegário Maciel que o poder seria entregue a Getúlio Vargas assim que ele chegasse ao Rio de Janeiro, o que veio a ocorrer em 3 de novembro de 1930.

A ERA VARGAS, O ENVOLVIMENTO COM O INTEGRALISMO, O PLANO COHEN E A PARTICIPAÇÃO NA 2ª GUERRA MUNDIAL (1930-1945)

Mourão Filho concluiu o Curso de Comando e Estado-Maior na ECEME no final daquele ano, sendo promovido a capitão em agosto de 1931. O Brasil havia sepultado a República Velha e ingressado em uma nova etapa da sua História. Neste contexto, Mourão Filho foi classificado no Estado-Maior da 1ª Região Militar, no Rio de Janeiro (1931-1936). Foi um período de intensa atividade para ele, que participou da repressão à Revolução Constitucionalista de 1932 e no mesmo ano filiou-se à Ação Integralista Brasileira, movimento patriótico que vinha ganhando adeptos pelo Brasil afora. Sem descurar dos seus deveres de ofício, ajudou a cúpula da AIB a organizar a caravana cívica que percorreu várias cidades de Minas Gerais em dezembro de 1933.

Por sua dedicação à causa, Mourão Filho foi nomeado Chefe do Estado-Maior da Milícia da AIB, tendo acima de si apenas dois homens: Gustavo Barroso, Comandante da Milícia, e Plínio Salgado, líder supremo. Segundo a filha mais nova de Mourão, Laurita, sua camaradagem com Barroso sobreviveu à extinção da AIB, prolongando-se até a morte do historiador: “Entre as íntimas amizades do meu pai estava o grande escritor brasileiro e criador do Museu Histórico Nacional, Dr. Gustavo Barroso, que morava na Rua Sá Ferreira, nº 123, casa espraiada num belo jardim, com seus dois andares e simpática varanda na frente. Nela, meu pai, Gustavo e outros amigos desfrutavam daquelas horas depois do jantar, discutindo acontecimentos do dia, a situação do País e o movimento integralista”. Paralelamente à sua atividade política, o jovem capitão exercia a função de Comissário Militar da Estrada de Ferro Central do Brasil, como elemento de ligação entre o Ministério da Guerra e o Ministério da Viação, tendo em vista a necessidade de adaptar as ferrovias para a mobilização de tropas em caso de guerra. A tarefa, desempenhada por quase três anos (1933-1936), deu-lhe familiaridade com os aspectos logísticos da estratégia militar e reforçou sua aversão pelo predomínio das rodovias na nossa matriz de transportes: “O Presidente Washington Luiz lançou o slogan anticientífico ‘governar é abrir estradas de rodagem’, o qual imensos prejuízos vem dando ao País até hoje. Abandonou-se quase completamente o plano ferroviário que incluiria, naturalmente, a reforma completa da rede incoerente em sua estrutura, antieconômica, atrasada em técnica, em traçado, em perfil e no restante da infra-estrutura”. As experiências vividas por Mourão Filho neste período levaram-no a publicar seu primeiro livro, intitulado ‘Do liberalismo ao integralismo’, no qual criticava o sistema laissez-faire, por julgá-lo anticristão e antinacional.

Após um breve interregno como Subcomandante do 14º Batalhão de Caçadores (1936-1937), o Capitão Mourão Filho foi designado Adjunto da 4ª Seção do Estado-Maior do Exército. Nesta função, viu-se involuntariamente enredado na difusão do ‘Plano Cohen’. E aqui, por questão de justiça histórica, é preciso repor os fatos na sua inteireza. No que consistia o tal plano e como ele foi parar no EME? Na qualidade de Chefe do Estado-Maior da Milícia da AIB, Mourão recebera de Plínio Salgado e Gustavo Barroso a incumbência de elaborar o cenário de uma possível tentativa de tomada do poder pelos comunistas. Como os vermelhos agiriam? A pergunta não era descabida, dada a situação que o País vivia: desde junho, quando o Ministério da Justiça havia concedido habeas-corpus a 400 agitadores, sucessivos choques de rua e atentados perturbavam o sossego do País. A 2ª Seção do EME, responsável pela Inteligência, coletava vários informes que prenunciavam a repetição da Intentona de 1935. Seguindo ordens da cúpula da AIB, não dos seus superiores militares, Mourão elaborou o Boletim de Informações nº 4 do Serviço Secreto da AIB, que reproduzia um hipotético plano de assalto bolchevista ao poder. O documento deveria ser lido apenas por Barroso e Salgado, mas Mourão cometeu a imprudência de compartilhá-lo com o General Álvaro Guilherme Mariante, seu padrinho de casamento, que antes de devolvê-lo tirou uma cópia para si sem sua licença prévia.

O cenário elaborado por Mourão era tão realista que Mariante julgou conveniente utilizá-lo para inflamar o ânimo anticomunista dos seus pares no Exército. Para tanto, arrancou as primeiras páginas do Boletim (capítulos I a XIII), que permitiriam a qualquer leitor identificar sua origem integralista. Em seguida, entregou o documento ao Chefe do EME, General Pedro Aurélio de Góes Monteiro, que assim o tomou como um plano verdadeiro. Diante do que parecia um indício de revolução iminente, o Chefe do EME decidiu pôr o Alto Comando em estado de alerta: distribuiu cópias do ‘plano’ a dois generais e ao Capitão Filinto Müller, Chefe do DOPS. O Plano Cohen nunca deu entrada na 2ª Seção do EME, que é o canal regular de filtragem dos informes, porquanto ali eles são submetidos ao crivo dos analistas de inteligência encarregados de verificar se são autênticos ou falsos. Entretanto, foi exibido à imprensa por ordem do Chefe do Gabinete Militar da Presidência da República, com permissão do General Góes Monteiro, em 30 de setembro de 1937. No clima político daquele momento, o Plano Cohen parecia verossímil aos olhos do Alto Comando, já que seu conteúdo era coerente com diversos relatórios produzidos pela 2ª Seção do EME. Conquanto não tenha sido a principal justificativa para a implantação do Estado Novo, o documento ajudou a incendiar o ambiente nas semanas que antecederam a mudança de regime, consumada em 10 de novembro de 1937.

Num primeiro momento, a carreira de Mourão não foi prejudicada pelo episódio. Porém, depois que o Estado Novo veio abaixo (1945), veio a público que o plano era um mero exercício de simulação. Por conta disso, o oficial mineiro ganhou má fama, da qual só se livrou dez anos depois, quando um Conselho de Justificação instaurado a seu pedido comprovou que havia sido o General Góes Monteiro, e não ele, o responsável pela difusão de um documento cuja origem não havia sido previamente apurada pela 2ª Seção do EME.

Durante a vigência do Estado Novo (1937-1945), Mourão progrediu normalmente na hierarquia militar. Foi promovido a major em 25 de dezembro de 1937. Não participou do levante integralista de 1938, até porque estava distante da capital, recém-transferido para Santa Maria (RS), onde era Subcomandante do 7º Regimento de Infantaria (1938-1939). Embora Vargas tenha dissolvido a AIB, Mourão via o Presidente como um mal menor: “Getúlio Vargas era um autocrata, indesejável como todos os autocratas, mas sem os principais defeitos destes. Aliava uma indiscutível bondade paternal, uma grande simpatia pessoal e uma honestidade incontestável face aos dinheiros públicos”. Serviu quatro anos como Adjunto da 3ª Seção do EME (1939-1943), sendo então promovido a tenente-coronel, em 15 de abril de 1943. Exerceu por nove meses o encargo de Comandante do 15º Batalhão de Infantaria, em Curitiba, e depois passou um ano como Chefe do Gabinete da Diretoria de Recrutamento, no Rio de Janeiro (1944-1945). Sobreveio então a sua prova de fogo: a participação na 2ª Guerra Mundial. Mourão embarcou para a Itália em fevereiro de 1945. Chegou a tempo de participar das últimas batalhas, onde distinguiu-se a serviço da Pátria, na qualidade de Chefe da 3ª Seção do Depósito de Pessoal da FEB. Ali pôs em prática tudo que aprendera sobre logística nos anos anteriores.

O INTERREGNO 1945-1961: VISÕES DO GENERAL MOURÃO SOBRE O QUADRO POLÍTICO NACIONAL E INTERNACIONAL

O Tenente-Coronel Mourão Filho teve sua carreira truncada no decênio 1945-1955, conforme dito, em razão do seu envolvimento no episódio do Plano Cohen. Por conta disso, foi ultrapassado por colegas de turma no quadro de acesso ao generalato. Passou muitos anos como coronel, patente à qual foi promovido por antiguidade em 25 de março de 1948. Nesse período, ocupou cargos ora importantes, ora secundários: Diretor da 16ª Circunscrição de Recrutamento (1945-1947), Subchefe do Departamento Geral de Administração (1948), Comandante do 19º Regimento de Infantaria (1949-1950), Chefe do Escritório Comercial do Brasil em Montevidéu (1950-1951), Comandante do 11º Regimento de Infantaria (1951-1953), Diretor da 11ª Circunscrição de Recrutamento (1953-1955) e Diretor-Geral do Serviço Militar (1955-1956).

Em 1955, quando o General Góes Monteiro publicou suas memórias, Mourão teve a oportunidade de comprovar sua inocência, solicitando a instauração de um Conselho de Justificação para esclarecer, de uma vez por todas, o episódio de 1937. Ao término da instrução processual, o Conselho isentou-o de responsabilidade pela difusão do Plano Cohen. Em suas próprias palavras, a sentença lavou-lhe a alma depois de “tantos anos sofrendo humilhações de todo tipo, ofensas de toda sorte, insinuações de todo calibre, tendo a carreira prejudicada, levando em cada promoção caronas deslavadas”. Várias portas voltaram a se abrir para ele, agora sob a luz de uma feliz coincidência: Juscelino Kubitschek, seu colega de infância, vencera as eleições presidenciais. “A minha relação com ele sempre foi muito fraterna porque nossas mães, D. Júlia e D. Marianinha, foram contemporâneas em Diamantina, ambas professoras na Escola Municipal. Eu mesmo fui aluno da D. Júlia. A vida nos separou depois. Eu ingressei no Exército e Juscelino começou sua carreira política em Belo Horizonte”.

Sobreveio finalmente sua promoção a General-de-Brigada, em 25 de março de 1956. Foi quando o Presidente JK convidou-o a assumir a Presidência da CTR – Comissão Técnica do Rádio, órgão regulador que desempenhava função semelhante à da Anatel. Mourão exerceu a função cumulativamente com suas atribuições de Comandante da Infantaria Divisionária da 4ª DI, em Belo Horizonte (1956-1957), e Diretor de Assistência Social do Exército (1957-1961). Como Presidente da CTR, teve a oportunidade de lidar com temas de política externa, porquanto cabia-lhe chefiar a delegação do Brasil nas reuniões da UIT – União Internacional das Telecomunicações, foro da ONU onde os países-membros discutem a matéria, em Genebra. Lá, Mourão teve a oportunidade de confirmar quão tola e ingênua é a concepção daqueles que julgam que o Brasil deve fazer concessões aos EUA e se alinhar servilmente às posições deste país, alegando que isso nos trará compensações ou retribuições expressivas. O episódio sucedeu da seguinte maneira, durante a Conferência Administrativa de Radiocomunicações da UIT, realizada entre 17 de agosto e 21 de dezembro de 1959: as delegações estavam discutindo e decidindo, por maioria de votos, quais faixas de radiofusão caberiam a cada país. Brasil e Argentina disputavam as faixas de 525/535 Kc/s. A delegação dos EUA apoiou o pleito argentino. Quando Mourão inquiriu o chefe da comitiva americana, Mr. Tunis Augustus Macdonough Craven, este respondeu-lhe que Washington sempre apoiaria a Argentina em detrimento do Brasil nos foros globais, porque ela tinha ao seu lado os votos de 21 países hispano-americanos, enquanto o Brasil conseguia, no máximo, arrastar o voto de Portugal:

“Quando reclamei do Mr. TAM Craven, do Mr. Arctur Legel e do Mr. Colt Wolf porque a delegação americana havia apoiado a Argentina numa pretensão e eu havia perdido a parada, Mr. Craven me disse, no seu inglês americano que eu entendo mal, mas dá para o gasto: ‘Somos amigos do Brasil. É sem dúvida a maior potência da América do Sul. No caso de uma guerra [da União Soviética] contra o Continente, temos no Brasil a confiança que não temos em outros países – é claro que ele se referia à Argentina – e sabemos que o Brasil desempenhará um papel importante na guerra. Mas em Genebra, assim como em outras conferências internacionais, devemos dar prioridade à Argentina sobre o Brasil, porque ela tem 21 votos e os senhores só têm um, quando muito dois, contando com o de Portugal’. Aí eu compreendi o problema. Amanhã, se um ditador como Perón, o que é sempre de se esperar nesta infeliz América Latina, quiser uma briga conosco por causa de fronteiras ou porque quer que seja, pensam que a América do Norte virá em nosso favor? Oh! Tolos pedantes da Sorbonne. Não! Ou ficam neutros ou ficam contra. A Argentina é cabeça de todos os países que ‘hablan’, contra o único que fala no nosso Continente. Assim, não está afastado o perigo no Teatro Sul, como não teremos ao nosso lado os poderosos Estados Unidos da América”.

O trabalho de Mourão na CTR também o pôs em contato freqüente com jornalistas e políticos, muitos deles interessados em concessões de rádio. As conversas, por vezes desagradáveis, acentuaram sua aversão pela categoria: “Quanto aos políticos com que eu tinha que conviver, se pudesse metia todos na cadeia. Vil raça danada que vem desgraçando este País!” Também olhava com suspicácia as facilidades que o governo concedia a companhias forasteiras na exploração do subsolo brasileiro, resultado de uma infeliz combinação de três fatores: país rico em recursos naturais, políticos corruptos e empresas estrangeiras sedentas de ganho fácil. Assim descreveu o diretor de uma multinacional presente em Minas Gerais: “Jesse Carney era daqueles estrangeiros que sempre estão naqueles lugares em que aparece riqueza e, como seria de se esperar, os mais espertos se colocam para lucrar com a ingenuidade dos nacionais e a conivência dos corruptos, que lhes facilitam a vida com leis imorais através das quais sugam nossas riquezas”. A infiltração esquerdista na Igreja também o preocupava, como se depreende desta anotação: “Um dia, nesse clima extremista e confuso em que vivemos, surgirá um Papa cripto-comunista e adeus Igreja, o que, além de tudo, fará uma confusão tremenda em todo o mundo ocidental”. Pelo visto, o general conseguiu prever o surgimento da malsinada Teologia da Libertação. Deixou a chefia da CTR em 1961, após a posse do Presidente Jânio Quadros, quando voltou a dedicar-se exclusivamente ao Exército.

A CONJUNTURA PRÉ-REVOLUCIONÁRIA DE 1961-1964: MOURÃO E O MOVIMENTO CÍVICO-MILITAR DE 31 DE MARÇO DE 1964

A renúncia do Presidente Jânio Quadros e a posse do seu vice, João Goulart, sob égide do regime parlamentarista, abriram caminho para sucessivos eventos. Inicialmente bem-sucedido, o governo Jango caminhou para uma gradual esquerdização a partir de 1963. Ao mesmo tempo, o Brasil começou a sofrer influxos mais intensos da Guerra Fria, no bojo Revolução Cubana. O período coincidiu com uma nova etapa na carreira de Mourão, promovido a General-de-Divisão em 25 de março de 1962. Desta época datam seus primeiros contatos com civis e militares que observavam com apreensão a conjuntura nacional a partir de Santa Maria (RS), onde ele comandava a 3ª Divisão de Infantaria. Seu engajamento político prosseguiu no ano seguinte, quando deu-se sua transferência para o Comando da 2ª Região Militar.

Meses depois, quando Mourão assumiu a função de Comandante da 4ª Divisão de Infantaria do I Exército, em Juiz de Fora (MG), o quadro político do Brasil já era de franca turbulência, com a eclosão da malograda Revolta dos Sargentos, em setembro de 1963. Em parceria com o Governador José Magalhães Pinto, o filho de Diamantina iniciou preparativos para levantar-se contra o governo. A gota d’água caiu em 13 de março de 1964, quando Jango realizou o famoso comício na Central do Brasil, dividindo o palanque com notórios subversivos, entre eles Oswaldo Pacheco, integrante do Partido Comunista: “O comício foi um escândalo! Um Presidente da República deixa o Palácio e vai para a praça pública fazer um comício como um simples demagogo, aplaudido por comunistas que empunhavam faixas com foice e martelo! E pior: montaram o palanque nas barbas do Ministério da Guerra. O fim da picada!” A partir daquele dia, sedimentou-se no espírito de Mourão a convicção de que era preciso deter as tropelias do governo o quanto antes.

Se o comício de 13 de março foi a gota d’água, a cereja do bolo veio no dia 30, quando Jango proferiu seu discurso para sargentos do Exército no Clube do Automóvel, três dias após um motim que havia configurado quebra de hierarquia nas forças navais: a Revolta dos Marinheiros. Na madrugada do dia 31, Mourão Filho partiu com suas tropas de Minas Gerais para derrubar o governo. O movimento, iniciado sem aviso prévio aos generais que conspiravam no Rio de Janeiro, assustou o Marechal Castelo Branco e o General Antônio Carlos Muricy, que haviam programado a deposição do Presidente para 10 de abril. Mourão queimou a largada. Porém, uma vez iniciado o movimento, este era irreversível. Os demais grupos conspiradores também começaram a pôr suas tropas nas ruas, em diferentes pontos do Brasil, a princípio sem muita coordenação entre si. No dia 1º de abril, com a adesão do II Exército, até então indeciso, e a fuga de João Goulart para o Uruguai, estava vitorioso o Movimento Cívico-Militar. Segundo Mourão, “a Revolução de 1964 foi resultado simplesmente da repulsa nacional, incontestável, que foi se tornando sempre mais forte na medida em que os torvos agitadores cresciam em audácia, na doutrina da subversão, do comunismo. Havia no consenso nacional a necessidade inadiável de pôr um termo às loucuras que se estavam praticando”.

Com o advento da nova ordem, o General Mourão Filho viu-se no centro das atenções, mas não deixou-se envaidecer pela fama. Recusou a cadeira de Presidente da Petrobrás, que foi-lhe oferecida, explicando que havia outros mais aptos a ocupá-la. Naquele tempo ainda havia homens capazes de recusar cargos bem remunerados, cientes de que uma empresa estatal deve ter seus quadros preenchidos com critérios meritocráticos: “Logo depois da Revolução de 1964, fui convidado para Presidente da Petrobrás. Nem por um minuto pensei em aceitar o cargo, baseando minha negativa no fato de não entender quase nada de petróleo e dos meandros de dificuldade que envolvia dirigir uma empresa do seu tamanho e importância”. Aquele mês de abril não presenciou apenas a posse do novo Presidente da República, mas a consagração profissional de Mourão, promovido a General-de-Exército em 30 de abril de 1964. Agora ele pertencia ao seleto time dos portadores de quatro estrelas nos ombros. Em setembro, foi nomeado Ministro do STM – Superior Tribunal Militar, onde teve assento até 17 de março de 1969. Recolhido da vida pública, faleceu em 28 de maio de 1972.

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