Gustavo Barroso em 1913 - Acervo Biblioteca Nacionalista

Uma a uma as lendas vão morrendo. E eu temo que, dentro em pouco, neste pratico seculo de invenções portentosas, não reste mais aos espiritos fatigados da aspereza scientifica o afago poetico de uma só.

Cada dia desce uma lenda ao tumulo. Tudo quanto sobre ella se disse ou escreveu parece muito velho, muito remoto e muito saudoso. Em breve, todas as lendas que faziam as doçuras da poesia estarão esquecidas. Na vertiginosa carreira da humanidade para o progresso, vão ficando esparsas e perdidas á maneira de fôlhas outomnaes, que o vento tange e escurraça. Dahi essa feição naturalista das coisas literarias de hoje., em que a verdade apparece em completa e explendida nudez ou velada pelo “manto diaphano da fantasia”.

Entre as mais poeticas e adoraveis lendas, a da mancenilha occupava um dos primeiros logares.

Diziam que quem se deitasse á sua sombra lethal morreria lentamente, num inefavel adormecimento, em que o cerebro talvez divagasse em pensamentos de amor ou se embebesse em languidas volupias. Era um doce morrer, um suave murchar de sensações.

Os poetas se apoderaram da arvore assassina e não houve mais soneto, poema, elegia, ode ou ballada, em que não estivesse com o brando murmurio das ramarias, a sombra alegre e tentadora, cujas exhalações adormentavam e matavam. Quanto amor desesperado, quanto sentimento ferido de desprezo, quanta paixão louca e brutal foram encontrar nella a quietação, a paz, o doce esquecimento da morte! Quantos bardos de esgrouviada cabelleira, menestreis de rôtos sutambaques a silenciosa mancenilha não matou!

Na “Morte de Dom João”, a voluptuosa Imperia diz:

“Foge de mim, trovador! / Não voltes mais! acredita, / Sou a arvore maldita, / A mancenilha do amor”

E diante das filhas, maceradas por noites de amor, as velhas mães piedosas exclamam:

”Com quem fostes dormir ao pé das mancenilhas!?”

Mas dessa lyrica lenda o grande triumpho foi quando os versos de Scribe e Meyerbeer a levaram ao palco, em 1865, no final da opera “A Africana”. Desde então, a mancenilha ficou consagrada.

Era uma linda scena aquella em que a lubrica Selika suavemente morria sob a arvore maldita, emquanto no horizonte se afundava a caravella branca do navegante que lhe roubára o coração. E a orchestra gemia a musica illuminada de Meyerbeer.

Surge agora na França o Sr. Coutance, medico que esteve longo tempo na Martinica, o qual afirma, peremptoriamente, ao mundo scientifico que a mancenilha não exhala vapores mortiferos e ninguem se intoxica no ameno refugio de sua folhagem. Segundo as observações apuradas do scientista, é uma inofensiva e innocentissima arvore. O tal Sr. Coutance acrescenta que, em vez der ser venenosa, é util: provoca adormecimentos, porém não fataes e sim optimos para os que sofrem de insomnias rebeldes. Eis a dura e sombria verdade: a mancenilha não mata !

E os poetas que suicidaram? E as formosas creaturas que para sempre adormeceram? E os versos de Scribe e de Guerra Junqueiro? E a partitura de Meyerbeer?

Nada disso salvará a mancenilha. Ella morreu, depois de ter morto muita gente em musica e rimas. Matou-a o Sr. Coutance desde o dia em que começou a estudar seus efeitos sobre os doentes do hospital de Fort de France. Prosaico Sr. Coutance !…

Pobre mancenilha, não serás mais a salvadora dos desesperados, que iam acolher ao somno delicioso da morte sob tua copa frondosa, embora crescesses viçosamente nas Antilhas e na Africa, e elles tangessem a lyra em Lisboa ou em Paris !

Onde irão agora os poetas dormir e esquecer? O velho Scribe andou mentindo e o guerra não falou a verdade. Assim, a douta razão da sciencia vai despindo a poesia, gralha bulenta, das fulgidas pennas do pavão ! Numa nova edição da “Morte de Dom João”, talvez encontremos Imperia a dizer:

“Sou a essencia maldita! Sou a morphina do amor!”

Digam os poetas adeus á lenda da mancenilha, agradeçam o descobrimento notavel do Sr. Coutance e se disponham, neste rebrilhante seculo de portentos, a cantar suicidios em aeroplanos e submarinos ou junto de baterias de frascos de chloroformio, descrevendo adormecimentos amorosos com injecções hypodermicas feitas com as seringas de Lüer…

“Vieilles legendes, vieilles lunes !”

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BARROSO, Gustavo. Idéas e Palavras. 1ª edição. Rio de Janeiro: Leite Ribeiro & Maurillo, 1917.

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