Recebemos, via e-mail, um extenso trabalho que revisita inúmeras frente da situações da ocupação sionista atual, encadeando-se de forma a exprimir um diagnóstico sobre a relação entre o Estado de Israel e os cristãos, perpassando inúmeros problemas-chave envolvendo o terrorismo e a instabilidade dos países do Oriente Médio. Após discussão e minuciosa leitura, decidimos por publicar o texto de Ezequiel Possenti, advertendo, por óbvio, que o corpo editorial não se responsabiliza por quaisquer opiniões e palavras empregadas ou ideias sustentadas.

Israel e os cristãos brasileiros

Anunciou recentemente o então primeiro-ministro do Estado de Israel, Benjamin Netanyahu, que o Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, teria firmado para 2020 o compromisso de transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, assim reconhecendo a Terra Santa dos cristãos como a capital política dos judeus.

Netanyahu foi confirmado pelo deputado federal e filho do Presidente, Eduardo Bolsonaro.
Com efeito, assim disse Eduardo: “Queremos ser um exemplo para a América Latina. Se fizermos esse movimento, os outros países vão se sentir confortáveis para nos seguir. E é o que esperamos”.

No mesmo período, o Presidente Bolsonaro declarou pessoalmente planos para que a transferência seja realizada até 2021.

Mesmo em vistas disso e da intensa pressão da bancada evangélica no Parlamento por essa transferência, seguimos com a fé de que nossos governantes são capazes de assumir, não só um pragmatismo realista que pense em nossos interesses acima dos interesses de grupos de lobby, organizações internacionais que nos são estranhas e outros países, como também em seus próprios valores religiosos antes de tomar decisões semelhantes. Reforça a nossa fé a cautela com que o atual vice-presidente, General Hamilton Mourão, referiu-se à pauta da transferência da embaixada, em entrevista à Folha de S. Paulo, ainda em 2018, preocupado com o comércio do Brasil com o mundo árabe, com a grande população árabe presente no Brasil e com um possível desembarque do terrorismo internacional em terras tupiniquins decorrente de nosso envolvimento nessa questão.

Por isso, elaboramos o seguinte texto com a finalidade de esclarecer a todos os cristãos brasileiros sobre o perigo teológico e político que representa a promoção do Estado de Israel para a Cristandade e para o Brasil. Cremos que, conhecendo a verdade dos fatos, omitida por uma ideologia poderosa impulsionada por um poderoso lobby, todos os cristãos serão capazes de abrir seus olhos para uma realidade perigosíssima a que o neoconservadorismo, corrente de matriz americana, tem dirigido os brasileiros.

Com efeito, o próprio neoconservadorismo americano, que justifica moralmente o subsídio bilionário dos Estados Unidos da América ao Estado de Israel e seu amparo geopolítico irrestrito, atingindo seu ápice com o acordo negociado pelo vice-presidente dos EUA, Mike Pence, de assistência a Israel em toda e qualquer guerra onde este se envolva (ainda que seja ele a começar), tem encontrado franco descrédito em suas posturas sionistas.

Recentemente, nacionalistas americanos iniciaram uma ampla e imbatível campanha de conscientização em eventos neoconservadores sobre a questão israelense. Estudiosos sérios, como Philip Giraldi, ex-oficial de contraterrorismo da CIA, têm dito, por exemplo, que, antes de um aliado, Israel mais poderia ser considerado, para os EUA, um inimigo.
Para sustentar a tese absurda e sem sentido do sionismo cristão, muitos autores lançaram mão do neologismo “judaico-cristianismo”, como maneira de associar um ao outro seja em matéria de Fé, de moral ou de civilização. Esse termo, no entanto, é tão descabido e equivocado que seria impossível conceber que tantas pessoas sérias o usem de boa fé. Não existe cristianismo sem que lhe preceda o judaísmo, como, aliás, não existiria judaísmo que não fosse no sentido da vinda do cristianismo. A missão do judaísmo, segundo ensina a teologia cristã tradicional, se cumpriu no momento em que a missão do cristianismo começou. O cristianismo, enquanto conceito, já inclui por si próprio o antecedente judaico. Se hoje existe ainda um judaísmo, não é como um complemento ao cristianismo, mas como uma oposição. Afinal, a filosofia de sintaxe que entende a necessidade de uma transcrição terminológica de procedência histórica e gera, por si mesma, o cacoete do “judaico-cristianismo” deveria também gerar, em se tratando do alfabeto latino, o termo “fenício-grego-etrusco-latino”, ou, no tocante à religião islâmica (e o que seria tão temido e tanto assombraria a direita sionista cristã!), judaico-cristã-islâmica; e uma civilização iraniana, por exemplo, seria “judaico-cristã-islâmica-xiita”… É desnecessário, concluímos, destacar a procedência histórica de qualquer termo que, em si mesmo, carrega um conceito definitivo e acabado (ou, ao menos, na tese do seu próprio ponto de vista) daqueles que o precederam. Embora nossa formulação possua um propósito teológico e político, um estudo mais sério de história civilizacional poderá mostrar a todos os estudiosos bem-intencionados que, de igual maneira, o judaísmo organizado nenhum papel possuiu na construção positiva da civilização cristã, que bem poderia, aliás, ser considerada, mais sinceramente, uma civilização greco-romana-cristã, em que nenhuma das categorias representa um aperfeiçoamento histórico da outra, mas uma contribuição diversa. Que isso não signifique uma desvalorização dos judeus, mas uma constatação factual contra o romantismo ideológico de certos teóricos.

Para elaborar este material, buscamos nos abster de expressar preferência por qualquer opção denominacional ou teológica específica dentro do cristianismo. O conteúdo a seguir foi produzido com o intuito de ser capaz de atingir a toda e qualquer pessoa que se assuma cristã. Isso justifica que em muito momentos se faça menção tanto ao Magistério e à Tradição católica quanto à teologia protestante, sem prejuízo, no entanto, na tese geral, para um ou para o outro. Se, falando sobre as lutas do cristianismo em Israel e no Oriente Médio, falamos principalmente sobre a Igreja Católica e Ortodoxa, é porque estas representam a maioria esmagadora dos cristãos naquela região, embora não lhes atribuamos exclusividade.

Nosso texto será dividido em três seções. Elas bem poderiam se denominar, cada uma: Teologia, Política e Geopolítica. Na primeira, com três capítulos, discorreremos sobre a fundamentação teológica da defesa do Estado de Israel na comunidade cristã interdenominacional. São eles: (1) Os fundamentos do sionismo cristão; (2) As contestações judaicas ao sionismo; (3) O sionismo cristão à luz das Escrituras; (4) O sionismo na Tradição cristã. Na segunda, com dois capítulos, exporemos como a política interna do Estado de Israel atenta contra os valores e a Fé cristã. Esses capítulos são os seguintes: (5) O Estado de Israel não é um Estado conservador, nem defensor de valores “judaico-cristãos” e (6) O Estado de Israel persegue publicamente os cristãos. Por fim, na terceira e última seção, procuraremos esboçar o contexto geopolítico que implica Israel e os cristãos, expondo como Israel tem trabalhado contra os cristãos em escala extra-nacional, em complemento à clara oposição interna entre Israel e os cristãos que expusemos na seção anterior. Em seu terceiro capítulo, traçaremos um histórico das relações do Brasil, visando seus interesses soberanos, com Israel e os países árabes, cuja reversão poderá ocasionar intenso malefício econômico e geopolítico à nação brasileira, dissecando a relação dos outros países da região com os cristãos, em contraponto à clara oposição entre Israel e os cristãos que expusemos na seção anterior. Divide-se a seção entre os seguintes capítulos: (7) Os cristãos e o Oriente Médio; (8) Israel e o terrorismo; (9) O Brasil e o Oriente Médio. Ao final do texto, será possível consultar as referências que forneceram informações para a construção do material.

Os fundamentos do sionismo cristão

O sionismo, ou a ideologia de fundamentação de um Estado judaico na Palestina (o contemporâneo Estado de Israel), surgido como uma heresia dentro do próprio judaísmo, é rejeitado pelo judaísmo ortodoxo, por sua interpretação herética de que o Messias venha a ser a raça judaica, e não uma pessoa, como ensinam as Escrituras de maneira literal. Nesse ponto, o sionismo original é mais racista do que o próprio nazismo. De fato, uma das raízes mais imediatas da instauração do Estado de Israel foi o movimento judaico filo-nazista Lehi, ativo durante a Segunda Guerra Mundial e que buscava uma aliança estreita com a Alemanha Nazista no futuro Estado de Israel. Um dos fundadores do sionismo moderno, Moses Hess, em seu livro “Roma e Jerusalém”, mostra-se virulentamente anticristão, dizendo que “a Cristandade é uma religião da morte”. De igual maneira, ele considerava que “a era messiânica é a era presente”, segundo a concepção da “raça judaica como o Messias”. Como uma ideologia tão sectária e anticristã pôde se infiltrar nas comunidades religiosas cristãs de maneira tão ampla?

Sionistas cristãos creem, em geral, que o restabelecimento de um Estado para o povo judaico na Palestina é uma das etapas necessárias para o cumprimento das profecias que levarão à segunda vinda de Cristo, numa espécie de “aceleracionismo apocalíptico”.

Essa concepção, no entanto, traz consigo inúmeros problemas se não for vista de uma ótica cristã catastrofista. Ora, muitos sionistas cristãos defendem o Estado de Israel como um Estado cuja promoção geopolítica pelas nações cristãs é um imperativo moral. Fazê-lo porque ele levaria ao cumprimento das profecias segue, rigorosamente, a mesma lógica de promover moralmente o Anticristo, porque ele é necessário para as profecias! Mas o Anticristo, sendo necessário para as profecias, não é bom. O Estado de Israel, ainda que fosse a Israel descrita no Apocalipse, não precisaria ser bom. Aliás, essa assunção seria afirmar a vida em erro de pouco para a totalidade absoluta dos cristãos que viveram no mundo até os fins do século XIX, porque todos eles, seguindo o que manda Jesus Cristo em Mc 13,32-37 ou Mt 24,36-42, “Ficai de sobreaviso, vigiai”, não se importavam de que não existisse então um Estado judaico chamado Israel: o Fim dos Tempos poderia chegar naquele mesmo dia, “visto que não sabeis quando o senhor da casa voltará, se à tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se pela manhã”. O próprio Paulo não sabia se o Fim dos Tempos viria enquanto ele ainda estivesse vivo; mas não havia nenhum “palco”, dentro do qual se estivesse orquestrado, inclusive, o Estado de Israel, para que ele pudesse dizê-lo! Com efeito, foi a escola dispensacionalista, na qual entraremos em poucos capítulos, que introduziu no cristianismo, contra os versículos citados, a ideia de que caberia aos homens a tarefa de preparar para Deus o palco do Armagedom, sem o qual este não poderia acontecer. Exporemos brevemente a contradição entre essa interpretação e os seus fundamentos teológicos quando nos debruçarmos melhor no tema.

Mais do que isso, no entanto, muitos sionistas cristãos têm o Estado de Israel como a casa de um povo eleito por Deus, posição em que estariam os judeus até os dias de hoje. O Terceiro Congresso Sionista Cristão Internacional de Jerusalém, em 1996, traz em suas declarações que “eles [os descendentes de Abraão, Isaac e Jacó] continuam eleitos de Deus, e sem a nação judaica Seu propósito redentor para o mundo não estará completo”. Os israelitas são também vistos como um povo que se deve defender como os precursores dos cristãos, ou, ao menos, como o povo ao qual Cristo fazia parte. Uma outra corrente de protestantes diz que os judeus e os cristãos são ambas religiões válidas para se chegar a Deus.

Essas posições, no entanto, são muitas vezes contraditórias, parecendo, em grande parte, uma mera retórica sionista para convencer cristãos com menos estudos teológicos a cerrar fileiras consigo, como de fato o é, segundo veremos. Discorreremos mais à frente sobre o sionismo cristão à luz das Escrituras, a fim de dissipar essa nuvem de confusão.

As contestações judaicas ao sionismo

Nosso texto tem o propósito claro de se dirigir aos cristãos. No entanto, é importante, primeiro, evidenciar, para aqueles cristãos que sentem-se em profunda comunhão com o judaísmo, cujo equívoco teológico exporemos mais à frente, as próprias contestações dos ensinamentos judaicos ao sionismo moderno. Ainda neste texto, provaremos cabalmente que o cristão não pode ser sionista. Mas, no âmbito da “Fé judaico-cristã”, neologismo que criticamos mais cedo, não é só o segundo lado do binômio que é avesso em seus princípios ao sionismo: é, também, o primeiro, isto é, o próprio judaísmo, objeto principal do Estado de Israel. Dessa forma, sua legitimidade fica seriamente contestada sob qualquer aspecto.

O Estado de Israel, primeiro, se justifica como o retorno dos judeus à unificação na região geográfica da Palestina, em decorrência da Diáspora, quando, após a devastação de Jerusalém pelo Império Romano em 70 e, depois, em 136, os judeus se dispersaram entre as nações de todo o mundo, cumprindo a profecia do Senhor em Lv 26,33: “Eu vos dispersarei entre as nações, e desembainharei a espada atrás de vós; vossa terra será devastada e vossas cidades se tornarão desertas”. Também em Dt 28,64-68, lê-se: “O Senhor te dispersará entre todas as nações, de uma extremidade a outra da terra, e lá renderás culto a outros deuses, deuses de pau e de pedra, que nem tu nem teus pais conheceram. Não haverá segurança para ti no meio desses povos, nem repouso para a planta de teus pés. O Senhor te dará ali um coração agitado, olhos lânguidos e uma alma desfalecida”. Tudo isso, para um cristão, é a consequência do exposto em vv. 58-59, isto é, a falta de reverência pelo nome de Deus, que resultou na crucifixão de Cristo, após a qual o Senhor feriu aos judeus e seus descendentes (vv. 59; a profecia começa a ser realizada quando consentida pelos judeus em Mt 27,25) “com pragas extraordinárias, pragas grandes e permanentes, doenças pernicio­sas e pertinazes”. Foram essas pragas os frutos da Diáspora.

Eis então um fato: foi Deus quem mandou os judeus para o “exílio”, dispersando-os “entre todas as nações, de uma extremidade a outra da terra”. No próximo capítulo, como escrito por cristãos e para cristãos, demonstraremos que todas as profecias para Israel dirão respeito, após a Redenção, aos seguidores de Cristo. Mas e a um judeu, alvo e base do Estado de Israel? Interessa encerrar o exílio, reconstruindo um Estado judaico na Palestina e reagrupando-se como nação?

Segundo a religião judaica, religião que os sionistas cristãos fazem compartilhar da salvação, não.

A primeira fonte a esse respeito encontra-se no livro do profeta Isaías, em seu capítulo 11, que descreve a chegada do Messias (Jesus Cristo, para os cristãos; ainda a vir, para os judeus). “Naquele tempo” (o tempo do Messias, v. 10-11), “o Senhor levantará de novo a mão para resgatar o resto de seu povo”; “levantará o seu estandarte entre as nações, reunirá os exilados de Israel, e recolherá os dispersos de Judá dos quatro cantos da terra” (v. 11-12). A reunião dos exilados, portanto, só acontecerá no tempo do Messias, seguindo-se a interpretação judaica, que não compreende já ter vindo o Messias. No livro do profeta Ezequiel, capítulo 37, o Senhor revela que, na reunificação, “meu servo Davi será o seu rei” (v. 24). Ora, não é o rei Davi o soberano do Estado de Israel; e, na segunda seção deste artigo, demonstraremos que não há qualquer semelhança entre o Estado de Israel de 1948 aos dias de hoje e a promessa do Senhor para o reino unificado no versículo 24, da qual dista substancialmente: “obedecerão aos meus mandamentos, observarão as minhas leis e as porão em prática”.

Contudo, o judaísmo não se baseia somente na Bíblia, a Tanakh ou a Torah. Ocupa posição equivalente na fé judaica o livro do Talmud, que reúne a lei oral judaica, transmitida pelos rabinos. No Talmud, transmitem-se interpretações da Bíblia e ensinamentos tradicionais que passaram por todos os profetas. O tratado de Kesubos, em seu capítulo 111, comenta um trecho específico (um “juramento”) de Deus no livro do Cântico dos Cânticos, repetido três vezes (2,7, 3,5 e 8,4): “Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém, pelas gazelas e as corças dos campos, que não desperteis nem perturbeis o amor, até que ele o queira”. E comenta, em 111a: “o interlocutor aqui é D’us, e as ‘filhas de Jerusalém’ são o povo judaico e as nações do mundo. Durante o exílio judaico, que começou com a destruição do Templo no ano 69 EC, D’us colocou três juramentos sobre o mundo, dois sobre o povo judeu e dois sobre as nações. O povo judeu foi compelido a não imigrar ‘como um muro’ [i. e. em massa] para a Terra Santa, e a não se rebelar contra as outras nações. As nações foram compelidas a não afligir muito os judeus”. No livro do Midrash Rabbah, sobre o versículo 2,7 do Cântico dos Cânticos, dizem os rabinos: “A razão para o juramento contra a imigração em massa é que, se os judeus fossem para fazer isso por si mesmos, por que deveria o Messias vir para reunir os exilados de Israel?”. E, sobre o mesmo juramento, no versículo 8,4: “A redenção do povo judeu é comparada à colheita dos cereais, das uvas e dos temperos, e a uma mulher dando à luz. O tópico comum de todas essas metáforas é que elas não podem ser feitas muito cedo. Se o cereal é cortado muito cedo, não será bom nem como comida de animal. Se as uvas são cortadas muito cedo, não serão boas nem pra fazer vinagre. Se o tempero é colhido muito cedo, não terá cheiro; deverá antes secar na árvore. E se uma mulher dá à luz prematuramente, o bebê não viverá. Assim também, se o povo judeu apressar o fim, eles não terão sucesso, mas no tempo certo, pode ser em breve, eles terão sucesso”. E, assim, dizem os rabinos no tratado de Shabbos, 63a: “A diferença entre a era presente e os dias do Messias é que na era presente os judeus estão exilados sob as nações e nos dias do Messias eles serão independentes”.

Também importantes rabinos da tradição judaica, como Rashi e Maimônides, possuem icônicas citações sobre o tema.

Se o Estado de Israel é, religiosamente, anti-judaico, que tem ele a ver com a Bíblia? Qual é a sua relação com as promessas à Israel do Antigo Testamento, sejam elas dirigidas ao povo judaico, como o entendem os judeus e os dispensacionalistas, ou sejam elas dirigidas ao povo cristão, como o entendem os cristãos e deixaremos especialmente claro no capítulo a seguir? Responderemos sucintamente: nada. Israel é um projeto político secular, sobre princípios étnicos (raciais, por que não dizê-lo logo?); sua usurpação da Bíblia é um meio de sustentação política. Judeus e cristãos estão unidos sob a manipulação propagandística de um Estado que direciona seus mais legítimos sentimentos religiosos a um projeto ilegítimo e perverso.

O sionismo cristão à luz da “Sola Scriptura”

No capítulo anterior, provamos que não se pode a um só tempo bem observar as Escrituras e o Talmud, sendo judeu, e defender o Estado de Israel (muito menos como Estado judaico). Se o Estado de Israel não deixa de ser um Estado judaico em sua justificação, ele é, ainda assim, um Estado herético e, de fato, anti-judaico no quesito de ortodoxia religiosa. Por si só, cristãos com tendências judaizantes sentirão-se enganados, notando que a Israel do Antigo Testamento não possui, de fato, relações com o Estado moderno de Israel. Mas sempre surgirão outros subterfúgios, outras maneiras de induzir os cristãos a usurpar o nome de Israel para o Estado que hoje impera na Palestina. Não há saída que não seja esta: a de provar, por todos os meios, que o cristianismo não toma pelo “povo de Israel” ao povo judaico, mas que o povo de Israel, após a Redenção, tornou-se o povo de Cristo.

Na Carta aos Romanos, capítulo 2, entre os versículos 28 e 29, Paulo exorta: “Não é verdadeiro judeu o que o é exteriormente, nem verdadeira circuncisão a que aparece exteriormente na carne. Mas é judeu o que o é interiormente, e verdadeira circuncisão é a do coração, segundo o espírito da lei, e não segundo a letra. Tal judeu recebe o louvor não dos homens, e sim de Deus”. Os judeus israelitas, com efeito, já não podem mais, à luz da Nova Aliança, serem chamados de “povo escolhido”, porque o povo escolhido, desde a redenção da Humanidade por Cristo, são os cristãos. “Se com tua boca confessares que Jesus é o Senhor, e se em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, será salvo” (Rm 10,9). Mais cedo, comparando o semita e o grego, Paulo diz que, “diante de Deus, não há distinção de pessoas” (v. 2,11), como, mais tarde, em Rm 10,12, dirá também que “não há distinção entre judeu e grego, porque todos têm um mesmo Senhor, rico para com todos os que o invocam”. Isso lhe dá razão para que, no capítulo 3, versículos 29 e 30, possa concluir: “Ou Deus só é o dos judeus? Não é também Deus dos pagãos? Sim, ele o é também dos pagãos. Porque não há mais que um só Deus, o qual justificará pela fé os circuncisos e, também pela fé, os incircuncisos”.

Com efeito, após a vinda, morte e ressurreição de Cristo, Paulo podia dizer que “Israel não conseguiu o que procura. Os escolhidos, estes sim, o conseguiram” (Rm 11,7, grifos nossos), isto é, os que subsistem “segundo a eleição da graça” (v. 5) de Cristo. Os cristãos são, hoje, os verdadeiros judeus e a verdadeira Israel. Se diz Paulo que o verdadeiro judeu é o cristão, diz também Deus no Apocalipse: “Eu conheço a tua angústia e a tua pobreza (ainda que sejas rico) e também as difamações daqueles que se dizem judeus e não o são; são apenas uma sinagoga de Satanás” (Ap 2,9); “Eu te entrego adeptos da sinagoga de Satanás, desses que se dizem judeus, e não o são, mas mentem” (Ap 3,9).

Ora, “só os que têm fé é que são filhos de Abraão. Prevendo a Escritura que Deus justificaria os povos pagãos pela fé, anunciou esta Boa-Nova a Abraão: Em ti todos os povos serão abençoados (Gn 18,18)” (Gl 3,7-8, grifos nossos). Mais cedo, em Gálatas 3,29, Paulo cedia a descendência de Abraão, isto é, Israel, aos cristãos: “Ora, se sois de Cristo, então sois verdadeiramente descendentes de Abraão, herdeiros segundo a Promessa”. Com isso, Paulo duplamente atribui aos cristãos o caráter de escolhidos, em Romanos, e herdeiros, em Gálatas, contrapondo esse título ao antigo título dos judeus. Depois, refere-se aos cristãos como o “Israel de Deus” (6,16). Justificando-se, diz Paulo aos Romanos, já no capítulo 9: “Não quer dizer, porém, que a Palavra de Deus tenha falhado. Porque nem todos os que descendem de Israel são verdadeiros israelitas, como nem todos os descendentes de Abraão são filhos de Abraão; mas: É em Isaac que terás uma descendência que trará o teu nome (Gn 21,12). Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa é que serão considerados como descendentes” (vv. 3,6-8, grifos nossos). O próprio Jesus Cristo, nosso Senhor, dizia aos judeus, em Jo 8,39-40: “Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão. Mas, agora, procurais tirar-me a vida, a vós que vos falei a verdade que ouvi de Deus! Isso Abraão não fez!”. Ora, só os filhos de Abraão são herdeiros da Promessa. Os judeus, segundo Cristo, não o são mais; os filhos de Abraão, ou seja, a verdadeira Israel, são os cristãos, segundo Paulo em Gálatas. Aliás, o próprio Senhor prenunciou, em Os 2,1: “Chamarei meu povo ao que não era meu povo, e amada a que não era amada. E no lugar mesmo em que lhes foi dito: Vós não sois meu povo, ali serão chamados filhos de Deus vivo”. As promessas feitas a Israel permanecem, mas foram transmitidas à Nova e Verdadeira Israel, cujos novos, e verdadeiros, israelitas são os cristãos. Os judeus, no entanto, perderam todo o seu direito a essas promessas, porque não são mais israelitas ou descendentes de Abraão: são a “sinagoga de Satanás” (Ap 2,9; 3,9).

Uma corrente protestante, que citamos brevemente mais acima, afirma que, mesmo com a redenção dos gentios por Cristo, os judeus seguem como o povo eleito de Deus, ainda que compartilhando este título com os cristãos. Um Estado judaico seria, portanto, um Estado irmão em Deus às nações cristãs. Essa doutrina, no entanto, não é capaz de encontrar qualquer sustentação segundo as Escrituras. Os judeus, enquanto judeus, não possuem mais qualquer relação religiosa com Deus; como diz Paulo, eles “não são do agrado de Deus” (1Ts 2,15-16). Com efeito, diz João, de maneira inequívoca, que “todo aquele que nega o Filho não tem o Pai” (1Jo 2,23). O próprio Jesus Cristo ensina: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14,6). Ora, referindo-se sem outra margem de interpretação aos judeus, Cristo dizia, em Jo 8,19: “Não conheceis nem a mim nem a meu Pai; se me conhecêsseis, certamente conheceríeis também a meu Pai”; nos vv. 42-44, Ele sustenta que os judeus não são filhos de Deus, mas filhos do Diabo, isto é, a sinagoga de Satanás da qual fala o Pai no Apocalipse: “Se Deus fosse vosso pai, vós me amaríeis, porque eu saí de Deus. É dele que eu provenho, porque não vim de mim mesmo, mas foi ele quem me enviou. Por que não compreendeis minha linguagem? É porque não podeis ouvir a minha palavra. Vós tendes como pai o demônio e quereis fazer os desejos de vosso pai”. Isto é, não só os judeus, desde que rejeitaram o Messias, não são mais os filhos de Abraão e, como tal, herdeiros da Promessa, embora o sejam na carne (vide Gl 3,7), como não possuem a Deus por pai, mas ao Demônio. Os cristãos e os judeus, assim, não adoram ao mesmo Deus: os judeus, fala Paulo sem hesitação, “são inimigos de Deus” (Rm 11,28). Por isso, nosso Senhor, após constatar não ter encontrado semelhante fé à do centurião de Cafarnaum em nenhum lugar de Israel, declara-lhe que “multidões virão do Oriente e do Ocidente e se assentarão no Reino dos Céus com Abraão, Isaac e Jacó, enquanto os filhos do Reino serão lançados nas trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes” (Mt 8,11-12, grifos nossos).

A partir disso, o próprio Martinho Lutero, fundador do protestantismo e criador da “sola scriptura”, que hoje se têm usado como base principal para fundamentar o sionismo moderno, sentiu-se livre para professar um antijudaísmo até extremado, em sua obra “Dos judeus e suas mentiras”, de 1543, na qual afirma, aliás, que “os judeus foram abandonados por Deus”. Também João Calvino, logo atrás de Lutero no posto de principal reformador e pai do protestantismo, bem como pai do moderno neopentecostalismo, imitava-lhe numa postura de impetração extremada de culpa e perversidade aos judeus, tendo, inclusive, redigido a obra “Resposta às questões e objeções de um certo judeu”. A questão do judaísmo no cristianismo não é uma disputa entre “teologia reformada” e “teologia católica”, como ouvimos recentemente. Embora o catolicismo possua suas crenças particulares sobre o assunto, que exporemos no próximo capítulo (sem entrar no mérito dos judeus, mas apenas do sionismo), o fato é que não existe, no que podemos chamar de “tradição protestante”, esse posicionamento ideológico sionista. O dispensacionalismo, que é o fundamento da leitura escatológica que inspira a maioria das atuais lideranças neopentecostais sobre o papel de Israel no Armagedom, só foi surgir através de John Nelson Darby na década de 1830 e se popularizou nos Estados Unidos através de Cyrus Ingerson Scofield no começo do século XX. Foi essa a escola a introduzir no protestantismo, como no cristianismo em geral, pela primeira vez, a enfática noção de que Israel e a Igreja sejam povos distintos, sem que esta tenha substituído aquela nas promessas de Deus, mas recebido uma promessa distinta. No segundo prefácio que escreveu ao livro do profeta Ezequiel, em 1541, Martinho Lutero, pai, como já houvemos dito, do protestantismo e da “Sola Scriptura” afirmou: “De acordo com a segunda parte da profecia e a Nova Aliança, eles [os judeus] não são mais Israel; porque todas as coisas se renovarão, e Israel, também, deve se renovar, e estes sozinhos são a verdadeira Israel que aceitou a Nova Aliança, que foi estabelecida e começou em Jerusalém”. Em seguida: “Portanto, todos os gentios que são cristãos são os verdadeiros israelitas e os novos judeus, nascidos de Cristo, o mais nobre judeu”. Já Calvino, em seu comentário a Gl 6,16, já citado por nós, no qual Paulo se refere à “Israel de Deus”, afirma que “existem dois grupos que carregam este nome, uma pretensa Israel, que parece sê-lo aos olhos dos homens, — e a Israel de Deus. A circuncisão era um disfarce ante os homens, mas a regeneração é a verdade ante Deus. Em uma palavra, ele [Paulo] dá o nome de Israel de Deus aos que ele anteriormente denominou os filhos de Abraão pela fé (Gl 3,29), e então inclui todos os crentes, sejam judeus ou gentios, que estavam unidos em uma igreja”, isto é, Israel é a Igreja, que os protestantes entendem como a união de todos os cristãos. Diz também Calvino, interpretando Ez 14,7 e Ez 16,53, que os judeus “se excluíram da misericórdia de Deus”, tendo feito por si mesmos o “divórcio”. Jacó Armínio, o pai do moderno pentecostalismo e um dos principais reformadores do século XVI, enfim, afirma, ao discutir as disputas pelo nome de “Israel” no Antigo Testamento, que “o nome de Israel, [é aquele] pelo qual Deus enquadra, de maneira mais graciosa [que antes], a totalidade da Sua Igreja”.

Como falamos sobre o dispensacionalismo, que não tem qualquer relação com o pensamento dos primeiros reformadores ou dos primeiros cristãos sobre o assunto, é importantíssimo remontar a história de sua popularização nos Estados Unidos, através do qual pôde chegar ao Brasil no último século. Dissemos que foi C. I. Scofield o principal responsável pela disseminação do dispensacionalismo e, por tabela, do sionismo cristão nos EUA. As notas de rodapé de sua “Bíblia de Referência Scofield” são o motivo pelo qual hoje a comunidade protestante em massa adere entusiasticamente ao projeto do Estado de Israel. Alcoólatra confesso, considerado um “charlatão” pelos seus concidadãos e sem qualquer treinamento formal em teologia (embora fraudulentamente atribuísse a si mesmo o título de “Doutor em Divindade”), Scofield foi iniciado no dispensacionalismo pelo pastor James H. Brookes. No entanto, foi o icônico advogado judeu de Wall Street, Samuel Untermyer, o maior colaborador das atividades de Scofield, que pretendia publicar uma Bíblia conforme os ensinamentos dispensacionalistas. Untermyer era um notório sionista. Posteriormente, tornou-se o presidente da Keren Hayesod, famosa organização de arrecadação de fundos para o movimento sionista, nos Estados Unidos. Foi também Presidente da Liga Americana de Patriotas Judeus e da Liga Americana de Defesa dos Direitos Judaicos. Financiada por judeus sionistas, inclusive Untermyer, bem como por notórios sionistas cristãos, como William E. Blackstone, e publicada pela Oxford University Press, dirigida pelo velho dispensacionalista Henry Frowde, Scofield lançou em 1909 sua “Bíblia de Referência Scofield”. Um notório biógrafo de Scofield, Joseph M. Canfield, lança dúvidas interessantes sobre o envolvimento de sionistas como Untermyer no trabalho do “teólogo”. Untermyer era membro do Comitê Literário do Clube Lotos em Nova York, um clube de intercâmbio entre representantes e amigos da Literatura, das Ciências e das Belas Artes, no qual Scofield ingressou em 1901. A vida que os dois viviam eram extremamente remotas. Como pôde Scofield, um obscuro e sectário escritor do interior dos EUA, ser admitido num sofisticado clube nova-iorquino de alta cultura, com a qual tinha pouca familiaridade? É que Untermyer via na doutrina de Scofield um interessante suporte para empurrar no meio cristão um projeto político que notoriamente defendia: o sionismo. Assim, acredita Canfield poder dizer, a partir de sua admissão ao Clube Lotos, que “alguém estava dirigindo a carreira de C. I. Scofield, e essa direção provavelmente era motivada por preocupações remotas à fidelidade à pessoa, obra e verdade de Jesus Cristo”; esse alguém era Untermyer, um judeu. Segundo o Prof. David W. Lutz, Ph.D, “Untermyer usou Scofield, um advogado da cidade do Kansas sem treinamento formal em teologia, para injetar ideias sionistas no protestantismo americano. Untermyer e outros sionistas ricos e influentes que ele introduziu a Scofield promoveram e financiaram a carreira deste, incluindo sua viagem à Europa”. Ainda antes que a comunidade de irmãos dispensacionalistas fosse informada do projeto de publicação da Bíblia de Referência, entre 1901 e 1902, período após a admissão de Scofield no Clube Lotos, este arrecadou grandes fundos de milionários sionistas para a confecção de sua obra. Os principais eram Alwyn B. Ball Jr. e John T. Pirie. Tamanha foi a soma de donativos que recebeu que Scofield resignou ao púlpito em 1903 e devotou-se nos próximos seis anos exclusivamente à preparação de sua Bíblia, promovendo viagens para todo o mundo e contratando sete editores correspondentes. Aliás, não sendo Scofield um teólogo, ele não realizou, para a confecção de sua Bíblia de Referência (em que o texto bíblico e exegético se confundiam, um sobrepondo ao outro), um estudo hermenêutico segundo a linguagem original do texto, mas segundo a tradição anglicana da edição King James. Assim, embora fundada em outros autores, sua exegese era leiga e amadora, sem conhecimento hermenêutico adequado para uma tarefa tão ambiciosa quanto descobrir a verdade contida nas Escrituras. O sionismo, então, entrou no cristianismo sob medida, com uma motivação previamente política, isto é, através de um seleto grupo de investidores (muitos não-cristãos) com disponibilidade financeira para apoiar projetos políticos, sem que tenha atendido de fato a uma demanda teológica ou, melhor dizendo, a uma busca sincera pela Verdade das Escrituras, na qual, por 19 séculos, nunca antes havia um cristão chegado às suas conclusões. Neste texto, cremos já ter cumprido nossa proposta de análise do sionismo à luz das Escrituras, talvez conscientizando mentes influenciadas pela doutrina dispensacionalista (que não abordamos in totus) a questionar o modelo fundamental de sua concepção escatológica, isto é, a distinção entre as promessas de Israel e da Igreja. No entanto, a fim de contribuir para que não se busque justificar a parte (essa distinção) pela coerência do todo (a escatologia dispensacionalista), seria necessário um sumário das principais objeções levantadas contra a escola referida pela teologia moderna. Uma delas é a confusão dos seus partidários em distinguir profecias futuras, profecias já realizadas nas gerações anteriores, antes e depois da vinda de Cristo, e descrições históricas. No concernente às profecias apocalípticas, elas mostram que o julgamento não será exercido por ninguém senão agentes divinos: Jesus, seus anjos ou aqueles que vêm com ele do céu. Não haverá um Armagedom entre exércitos humanos. Não se profetiza nenhum país em tratativas com o Anticristo. Ora, dirão muitos, essa discussão envolve a relação entre a Providência e o livre-arbítrio, isto é, Deus age por meio dos homens; no entanto, o fundamento básico e pilastral do dispensacionalismo é a absoluta literalidade bíblica, principalmente de suas profecias. Ora, a Bíblia, em sua literalidade, é clara sobre a atuação de forças divinas, e não humanas, no Armagedom. Enfim, existem abundantes e muito poderosas respostas, irrefutáveis aliás, à exegese escatológica dispensacionalista, que, para se encaixar neste texto sobre a questão sionista, precisariam multiplicá-lo por três. Recomendamos, nesse sentido, a leitura da obra “The Problem with Evangelical Theology”, de Ben Witherington III, pp. 96-168.

Não sendo mais os israelitas de sangue ou de Fé o povo escolhido, eles não possuem mais nenhum direito divino sobre a terra de Israel, ou, particularmente, sobre Jerusalém, que foram transmitidos à nova Israel, isto é, os cristãos. Tampouco devem ser, enquanto nação judaica, um país politicamente salvaguardado pela comunidade dos cristãos. Com efeito, permanecendo judeus, estes fazem apenas negar a Cristo e servir ao Diabo. Se não bastaram todas as infinitas citações bíblicas que transcrevemos mais acima, dos apóstolos ou de Jesus Cristo, talvez sirvam as palavras do apóstolo João: “Todo espírito que não proclama Jesus, esse não é de Deus, mas é o espírito do Anticristo” (1Jo 4,3).

Mais à frente, veremos que, não só o contemporâneo Estado de Israel não tem qualquer relação teológica com a comunidade cristã, sendo, aliás, uma nação com fundamentos teológicos profundamente anticristãos, representante direto da “sinagoga de Satanás” (Ap 2,9; 3,9) e “inimiga de Deus” (Rm 11,28), e, de fato, indigno de qualquer proteção política sua, como, em termos atuais e políticos, mantém Israel uma política igualmente anticristã e progressista, perseguindo amplamente a comunidade cristã em seu território e amplamente promovendo políticas sociais liberais na Terra Santa.

O sionismo na Tradição cristã

Ainda no século II, tempo reivindicado em comum por protestantes (popularizados sob o apelido de “evangélicos”), católicos e ortodoxos, Justino Mártir, Pai da Igreja, defendia por cerca de 30 capítulos em seus “Diálogos com Trifão” que os cristãos são os novos judeus e a comunidade cristã, a Nova Israel. Escreve, referindo-se aos cristãos: “Com efeito, nós somos o povo de Israel verdadeiro e espiritual, a descendência de Judá e de Jacó, de Isaac e de Abraão, que foi atestado por Deus enquanto ainda era incircunciso e que foi abençoado e chamado pai de muitas nações” (Diálogos com Trifão, XI).

Em 25 de janeiro de 1904, o Papa São Pio X assim respondeu a Theodor Herzl, pai do sionismo, sobre um possível apoio da Igreja Católica à criação do Estado judaico de Israel: “Nós não podemos impedir os judeus de irem a Jerusalém, mas não poderemos jamais sancionar sua ida. O solo de Jerusalém não foi sempre sagrado, mas foi santificado pela vida de Jesus. Os judeus não reconheceram Nosso Senhor e não poderemos então reconhecer o povo judeu”.

Em 1917, disse também o Papa Bento XV: “Os judeus não têm qualquer direito à soberania sobre a Terra Santa”. No mesmo ano, o Império Britânico se apossou de Jerusalém, então em mãos islâmicas sob o Império Otomano. Dois anos depois, em 1919, e quatro, em 1921, Bento XV comemorou o retorno da Terra Santa a mãos cristãs, mas mostrou-se preocupado de que as comunidades cristãs da região fossem ameaçadas pelo desembarque demográfico de um grande número de judeus. Sua preocupação foi compartilhada pelo sucessor, Pio XI, que dizia, logo em seu primeiro discurso ao Conclave dos Cardeais, em 1922, que os direitos dos católicos podiam estar ameaçados negativamente por uma mudança no status dos judeus ou outras religiões no local. Foi por isso que, no mesmo ano, a Secretaria de Estado da Santa Sé, dirigida pelo Cardeal Pietro Gasparri, escreveu, em carta para o Secretário-Geral da Liga das Nações, que a Santa Sé “não pode aceitar que os judeus tenham uma posição privilegiada em relação aos outros” na Palestina.

Na encíclica “Redemptoris nostri”, de 15 de abril de 1949, já após a instauração do Estado de Israel na região da Palestina (que se deu em 1948), o Papa Pio XII conclamou todos os católicos do mundo a “persuadir os governantes das nações, e aqueles cujo dever é regulamentar esta importante questão, a garantir à Cidade Santa e à região próxima um status jurídico apropriado, dentro das quais a estabilidade não possa ser assegurada senão por um acordo mútuo entre as nações que amam a paz e respeita os direitos dos outros”, propugnando uma internacionalização de Jerusalém, de maneira que esta não ficasse nas mãos do Estado de Israel.

Ora, do que foi exposto, resulta que a Igreja Católica, portanto, é claramente contrária a que um Estado judaico detenha o próprio controle sobre a região da Terra Santa, que é a Palestina. Recordamos, a este ponto, a profissão pública de fé católica do nosso Presidente Bolsonaro. Se os judeus não podem deter o controle sobre Jerusalém, diremos, muito menos o podem como sua capital política, como concebe Bolsonaro, um católico professo! É dever de todo cristão, e mais ainda de todo católico, opor-se ao domínio de Jerusalém pelos judeus, que lhe negam o caráter sagrado que lhe foi atribuído por Cristo, não sendo, portanto, lícito que se o encoraje geopoliticamente.

No mesmo dia em que o Estado de Israel foi instaurado, em 1948, a revista La Civiltà Cattolica, do Vaticano, diretamente revisada e aprovada pelo Secretário de Estado da Santa Sé, publicou: “A Israel moderna não é a herdeira da Israel bíblica. A Terra Santa e seus sítios sagrados pertencem apenas à Cristandade: a Verdadeira Israel”.

O Estado de Israel não é um Estado conservador, nem defensor de valores “judaico-cristãos”

Para a Nova Direita, o Estado de Israel é uma “ponta de lança” do Ocidente no Oriente Médio, ou a “última linha de defesa” contra a expansão da esquerda e do “poder global islâmico” entre a Europa e a Ásia. Assim, é, por um lado, de maneira confusa, a defesa dos valores morais “judaico-cristãos” contra a degeneração progressista naquela região (embora seja, por força do islamismo, uma região absolutamente repulsiva ao liberalismo social), e, por outro, a defesa da liberdade individual desregrada, independente de valores morais (ou o próprio reduto do liberalismo social e da degeneração progressista no Oriente Médio). Entre um e outro, é um “posto avançado” do Ocidente contra o islamismo, que Olavo de Carvalho, em sua célebre teoria geopolítica, classifica como um dos “três poderes globais”. Apesar disso, Israel parece muito mais apto a um soft power global, ou seja, à prática do globalismo, do que qualquer outro país islâmico em suas redondezas; possuindo diversas agências de lobby e inteligência espalhadas pelas fronteiras das nações ocidentais, o Estado de Israel constitui um poder mais global do que qualquer Estado islâmico que lhe seja aliado ou inimigo — quer dizer, é fato que o Estado de Israel possui alianças profundas com diversos países islâmicos sunitas no Oriente Médio, todos alinhados ao projeto americano. É mítica a noção de que o poder global israelense seja justificável em oposição a um poder global islâmico mais danoso. Na verdade, existem dois “poderes” islâmicos distintos e divergentes no Oriente Médio, que se podem dizer, em termos bem simples, xiita e sunita. Aliás, os sunitas, que são naturalmente aliados geopolíticos de Israel, do Ocidente e do americanismo, são a própria vertente que gerou a al-Qaeda e o Estado Islâmico, por exemplo. Se há um projeto de poder global islâmico, este deve envolver, ao mesmo tempo, o Estado Islâmico e a Arábia Saudita, intenso aliado de Israel e dos EUA. Na próxima seção entraremos mais a fundo nas relações entre Israel e Estados e grupos islâmicos extremistas notórios por sua perseguição monstruosa às comunidades cristãs, bem como suas relações com Estados amigáveis aos cristãos na região.

O Estado de Israel é um etnoestado judaico (quase à maneira mesma do Estado nazista alemão), mas, ao contrário do que se acredita, não é um Estado religioso judaico. (Isso, contudo, não impede ao Estado de Israel de perseguir avidamente as igrejas cristãs, como exporemos mais adiante). De fato, o próprio Theodor Herzl, fundador do sionismo moderno, era um nacionalista judaico, mas tinha pouco apreço pela religião judaica em si. Os israelenses ocupam-se mais do povo judeu do que dos valores religiosos e morais associados a este, mesmo porque esses princípios, como provamos cabalmente no primeiro capítulo da primeira seção, contradizem de maneira grotesca a legitimidade do Estado de Israel. Como consequência, o Estado de Israel converteu-se num organismo progressista e liberal.

Apesar disso, é necessário distinguir. Há, para nós, cristãos, questões que nos são completamente imorais. Isso, contudo, não representa, necessariamente, uma imoralidade para os judeus. Na verdade, pode representar uma profunda dissonância entre os padrões morais judaicos e os cristãos, que inviabiliza a existência de uma “moral judaico-cristã” ou “civilização judaico-cristã”. Um dos casos mais emblemáticos é o do aborto. Em Israel, o aborto é legal desde 1977. Cerca de 40.000 crianças são assassinadas com amparo do Estado a cada ano em plena Terra Santa. Embora a solicitação para a realização do aborto precise passar previamente por um comitê de aprovação que analisará a natureza do caso, a esmagadora maioria dos casos são aprovados. É claro que isso não importa muito: quase metade dos abortos em Israel são realizados em clínicas privadas, que independem da aprovação do comitê. Mas, antes de 2014, cumprindo qualquer um dos requisitos (e um deles era simplesmente “não estar casada”), a gestante podia ganhar, gratuitamente, o assassinato do seu filho, custeado publicamente com dinheiro do contribuinte israelense. Hoje é diferente. Basta ter menos de 33 anos e se pode realizar um aborto com financiamento público, sob quaisquer circunstâncias – aliás, uma das circunstâncias destacadas por membros do comitê foi a ocasião de a gravidez ocorrer por meio de adultério num casamento e, portanto, a mulher não possuir meios financeiros de custear privadamente o aborto, por temer contar ao marido a respeito. De fato, o Talmud, em sua Mishna, a lei oral rabínica dos judeus, considera que o feto é “um apêndice de sua mãe” (Hullin 58a). Aliás, até o 40º dia, a lei talmúdica entende o feto como “mera água” (Yev. 69b). O rabino Rashi, figura central nos estudos judaicos, compreendia que o feto não era uma alma válida até o seu nascimento.

No entanto, a questão da homossexualidade, cuja problemática legal são os direitos sexuais (cuja pauta melhor se denomina “direitos LGBT” ou, de maneira mais direta, “direitos gay”) não representa uma dessas divergências morais entre judeus e cristãos. Na Torá, que compõe, para os cristãos, uma parte do que é o Antigo Testamento, em Levítico, capítulo 18, versículo 22, o próprio Deus dita: “Não te deitarás com um homem como se fosse mulher: isso é uma abominação” (toevah). Esta compõe, de fato, uma moral que se poderia dizer, por identidade, “judaico-cristã”, embora tenhamos denunciado o equívoco do termo na introdução deste texto. Mas, se um cristão pode, inventando malabarismos teológicos diversos e equivocados, dizer que esta lei foi abolida pela graça de Cristo, um judeu não tem meios para dizer o mesmo. E, ainda assim, esse preceito, tão fundamental para a moralidade judaica, é completamente abstraído pelo Estado “judaico” de Israel. De fato, Israel é o único país do Oriente Médio a possuir uma legislação que positive direitos especiais para a população LGBT. O Ministério de Assuntos Exteriores de Israel, em seu site oficial, diz orgulhosamente que “Israel é uma das sociedades mais inclusivas do mundo para a comunidade LGBT”. O Ministério também informa, expressamente, que a Parada Gay realizada em Tel Aviv é “a maior do continente da Ásia” e que “casais homossexuais (sic) possuem os mesmos direitos, privilégios e obrigações de casais heterossexuais”, da mesma maneira que “pais homossexuais são reconhecidos pelo que são, pais, e, por um acessível processo de adoção, são legalmente defendidos como família com completos direitos parentais”. Segundo o Ministério, pares gays em Israel possuem plenos direitos de reconhecimento de “casamento” civil realizado internacionalmente, adoção, seguridade social e herança. O direito de adoção por pares gays, entre todos os 48 países da Ásia, só existe em Israel, que foi também o primeiro país asiático a reconhecer a união homossexual e, até hoje, um dos dois únicos, ao lado apenas de Taiwan, somando desde já 79% da população a favor da legalização do “casamento” civil homossexual dentro das fronteiras. Aliás, Tel Aviv é considerada a “capital gay do Oriente Médio”. Mas a “sodomia” não se restringe à capital política oficialmente reconhecida de Israel, Tel Aviv: todos os anos, desde 2002, Jerusalém, a Terra Santa, recebe sua própria parada gay, com pleno aval legal do Estado de Israel. Em 2007, a Suprema Corte Israelense concedeu aprovação formal ao evento.

É possível prolongar longamente a questão moral da política do Estado moderno de Israel. Caberia explorar outros assuntos de alta importância moral para a direita conservadora, desde o tema do financiamento público milionário do Estado de Israel a estudos a favor da ideologia de gênero e do trabalho de uma divisão especial do Ministério da Educação israelense no ensino da ideologia de gênero às crianças no ensino primário até o da descriminalização da maconha naquele país em 2017. Para encerrar este ponto, bastará voltar a uma outra questão polêmica de bioética: a eutanásia. A eutanásia passiva, ou ortotanásia, ou homicídio clínico, e a eutanásia ativa, ou suicídio clínico, são ambas condenadas pela lei religiosa judaica, como também pela interpretação cristã. A eutanásia ativa, por sua vez, é plenamente legal em Israel: todo paciente terminal acima de 17 anos pode tirar a própria vida. Quanto à ortotanásia, esta tem tido brechas na lei israelense sob a forma de “exceções”, abrindo contínuos precedentes para uma legalização mais ampla do homicídio médico.

Nos Estados Unidos da América, o maior representante do neoconservadorismo hoje é Charlie Kirk. Para Kirk, é dever de todo conservador apoiar o Estado de Israel justamente por ser Israel o único país do Oriente Médio tolerante a essa ideia pomposa de “liberdades individuais”, como a liberdade sexual. Se esse conceito absoluto de liberdades individuais é tolerável da boca de um liberal, é, contudo, incompreensível se dito por alguém que se afirme conservador. Aliás, o adágio dos próprios “conservadores liberais” ou “liberais conservadores” é “liberalismo na economia e conservadorismo nos costumes”. Mas não há nenhum costume conservador no homossexualismo! Paulatinamente, os conservadores liberais progridem em sua faceta liberal, até o momento em que se dirão, de peito aberto, liberais nos costumes. A concepção de uma liberdade individual absoluta e desregrada é oposta à ideia conservadora do primado de uma ordem moral. O grande mestre dos atuais conservadores brasileiros, Olavo de Carvalho, contrapondo muito bem o liberalismo e o conservadorismo, diz que aquele defende uma liberdade formal, enquanto este se segura em uma liberdade “material”, isto é, definida por valores e princípios explícitos. Ora, para um cristão, não é mérito nenhum que o mal se prolifere em liberdade, porque a liberdade não é e não pode ser um bem em si mesma. A concepção de uma liberdade absoluta moralmente positiva é liberal e imoral, porque justifica, em si mesma, a prática imoral como expressão da liberdade. Por que haveríamos de louvar que Lúcifer tenha desobedecido a Deus através de um ato de liberdade? A moral, para um cristão, também não pode ser relativizada em infinitas definições que carreguem consigo um princípio de “não-agressão” ou “não-ofensa”: a lei moral é um todo coerente que vem já de Deus, e sua infração pode ser praticada consigo mesmo, com o próximo ou com Deus.

Qualquer cristão deve ter seu conceito de liberdade bem definido pelas palavras de Jesus Cristo em Jo 8,34, em resposta aos judeus que julgavam-se filhos da liberdade: “Todo aquele que comete o pecado é escravo do pecado”. Segundo explica o Magistério católico em particular, exposto principalmente na encíclica “Libertas, praestantissimum” do Papa Leão XIII e cuja obediência para o católico é obrigatória, a liberdade, como faculdade de escolher os meios no sentido de um fim determinado, só existe para o Bem, não para o Mal. Ensina o Venerável Papa Leão XIII que “a liberdade humana supõe a necessidade de obedecer a uma regra suprema e eterna; e esta regra não é outra senão a autoridade de Deus impondo-nos as suas ordenações ou as suas proibições, autoridade soberanamente justa que, longe de destruir ou de diminuir, de qualquer modo, a liberdade dos homens, a protege e a leva à sua perfeição”. Nesse sentido, “a missão de legislador civil reduz-se a obter, por meio duma disciplina comum, a obediência dos cidadãos, punindo os maus e os viciosos, com o fim de os afastar do mal e de os chamar ao bem”. Segundo ele, então, a liberdade desregrada como é tomada pelos liberais, corrente que ele expressamente condena e para a qual “não há, na vida prática, nenhum poder divino ao qual se tenha de obedecer, mas cada um é para si sua própria lei”, “não é senão pura e absurda licença” (grifos nossos).

O próximo capítulo, no entanto, servirá também para os liberais: trataremos a liberdade religiosa em Israel e nos diversos países que lhe são contrários e a favor, mostrando que a liberalidade israelense e sionista possui uma extensão limitada — acaba quando o assunto é a liberdade dos cristãos.

O Estado de Israel persegue publicamente os cristãos

Se muitos conservadores e liberais defendem Israel sob o pretexto deste ser “a única democracia liberal do Oriente Médio”, é contraditório pensar que, se não há democracia liberal no sentido clássico sem que haja liberdade religiosa, o Estado de Israel promove severas restrições à liberdade religiosa.

No entanto, é necessário pontuar: não é papel do cristão defender a democracia liberal como entidade moral. A democracia liberal, como quase todos os regimes políticos, promove, em si mesma, virtudes cristãs, mas de maneira incompleta. Ora, o liberalismo e o socialismo promovem ambos virtudes cristãs, mas nenhum dos dois é cristão, porque promovem essas virtudes de maneira isolada e desconexa do conjunto das virtudes e princípios cristãos. O liberalismo democrático, sem dúvida, promove a dignidade humana e a liberdade; mas promove uma dignidade humana racionalista e agnóstica, e uma liberdade degenerada e licenciosa, sobre a qual já expusemos mais acima. Foi Deus quem deu a Adão e Eva o livre arbítrio; foi a serpente quem induziu a Eva que, por meio do livre arbítrio, comesse do fruto da árvore proibida. Nenhum cristão crê que foi para Eva ato de virtude que comesse em liberdade do fruto proibido. Mas muitos cristãos creem ser virtude a capacidade de praticar o mal em liberdade numa democracia! É vil uma democracia que permita o mal em perfeita igualdade com o bem por mérito da liberdade. Da mesma maneira, um outro cristão, vivendo no século passado, poderia (e fazia), apontando para a União Soviética, dizer que é dever cristão apoiá-la, por ser um Estado que respeita o princípio da caridade e da solidariedade; mas foram uma caridade e uma solidariedade que não apenas se despiram de Deus, mas entraram em guerra com Deus. Mesmo cultivando, na teoria, uma rede de virtudes cristãs, a União Soviética jamais poderia dizer-se regida pelo cristianismo, porque atentava diretamente contra o cristianismo. De igual maneira, é possível encontrar virtudes cristãs em quase todas as religiões pagãs do mundo, mas nenhuma delas será cristã: ainda estarão sujeitas à lei de Jesus Cristo: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15). O caso da União Soviética é emblemático. Em sua época, muitos socialistas que se diziam cristãos afirmavam, de fato, que a União Soviética cultivava virtudes cristãs que os países ocidentais não cultivavam, como hoje, no polo oposto, diz-se que Israel cultiva virtudes cristãs que os países do Oriente Médio não cultivam; mas, mesmo assim, é sabido que a URSS, através da “Liga dos Militantes Sem Deus”, foi responsável pelo assassinato de centenas de milhares de fieis, clérigos e monges, constituindo um Estado ateu e anticristão. Muito semelhante a situação de Israel, como deixaremos patente e irrefutável nas próximas linhas.

Na seção anterior, explicamos por que o Estado de Israel não possui, em si mesmo, uma moralidade intrínseca à luz da teologia cristã. No último capítulo, mostramos que o Estado de Israel não só não é intrinsecamente vinculado à moral e à Fé cristãs e lhe é intrinsecamente oposto, mas é também, em sua política interna, isto é, acidental, um Estado imoral. Agora, estenderemos nossa proposta: demonstraremos que, sendo o Estado de Israel imoral em essência e acidente e anticristão em essência, é também anticristão em acidente, isto é, segundo suas políticas práticas.

Para começar, é necessário uma explicação. Existem, de fato, dezenas de países com políticas anticristãs em todo o mundo. Aliás, o ano de 2019 foi um dos anos com a maior soma de cristãos mortos em toda a história mundial. Israel ser uma nação politicamente anticristã não assustaria a ninguém. O que assusta são dois fatores: o primeiro é que ela seja tida como uma nação moral e de defesa moralmente imperativa por muitos cristãos em todo o mundo; o segundo é que ela pratique essas políticas na terra que Jesus Cristo santificou, com plenos poderes de deliberação em Belém, Nazaré, na Galileia e, enfim, em Jerusalém. Não assusta (é monstruoso, mas não assusta) que cristãos sejam perseguidos na Somália, por exemplo, ou mesmo no Iraque; mas é terrível pensar que cristãos sejam perseguidos e mortos ainda hoje onde Jesus Cristo nasceu, evangelizou e morreu, e que seus carrascos sejam amplamente promovidos por esses mesmos cristãos! Dessa forma, a perseguição do Estado de Israel às comunidades cristãs pode, talvez, constar sob o título de maior perversidade intentada por Satanás desde sua decadência.

É comum, em discussões no que concerne a uma política de relações exteriores para o Brasil, um rechaçamento absoluto de qualquer envolvimento geopolítico com a China, por exemplo, em decorrência de sua perseguição ativa à comunidade cristã, ou com o Irã, em decorrência de uma suposta situação similar, que demonstraremos mais tarde ser falsa. É curioso notar, no entanto, que a mesma corrente a promover esta interpretação também costuma ser concorde sobre o ideal do estreitamento de laços com Israel.

Em dezembro de 2019, no mesmo período em que Netanyahu e Eduardo Bolsonaro falavam de peito aberto sobre a transferência da embaixada brasileira no Estado de Israel a Jerusalém, a comunidade cristã sofria um doloroso choque: era a notícia do envenenamento com gás de Atallah Hanna, ou Teodósio, arcebispo de Sebastia, do Patriarcado Ortodoxo de Constantinopla, e, como tal, bispo ortodoxo em Jerusalém. Um botijão de um certo gás, de procedência israelense, foi disparado em sua igreja, em Jerusalém. Três semanas antes, Hanna havia dito, em Istambul, na Primeira Conferência Global sobre o Apartheid Israelense: “palestinos cristãos e muçulmanos vivendo em Jerusalém sofrem da ocupação, sofrem da repressão, tirania e opressão”. Segundo afirmou Hanna a partir das informações médicas que lhe foram disponibilizadas, a substância tóxica, devido à sua natureza, foi certamente disparada com o intuito de assassiná-lo ou mantê-lo debilitado pelo resto de sua vida. Em entrevista no hospital, ele afirmou que “evidências indicam que Israel está por trás do incidente”. Foi assim que Teodósio passou o Advento e o Natal: internado, seriamente vitimado por um envenenamento causado por Israel. Não há notícias sobre a investigação policial em torno do ocorrido.

Se foi assim que o bispo ortodoxo de Jerusalém passou o Natal, não menos infelizes o passaram os leigos cristãos da Cisjordânia. Há anos, é muito difícil ir a Belém, na Igreja da Natividade, para um morador de Gaza. Desde que Gaza entrou em cerco pelo Estado de Israel, a população cristã local se reduziu a menos de um terço. Antes disso, o Natal era, para todo o povo de Gaza, segundo seus residentes, um evento que reunia todos em praças públicas com júbilo, com o costume de locomoção a Belém no período das festividades. Hoje, é muito difícil conseguir ir a Belém no Natal: é necessário o envio de uma petição ao Exército de Israel, e menos de um terço das solicitações são aprovadas, sem que exista qualquer regra ou processo bem definido para a confirmação de uma petição. Em 11 de dezembro de 2019, a Coordenação de Atividades do Governo nos Territórios, do Exército israelense, anunciou que não seriam concedidas autorizações aos cristãos de Gaza para viajar a Belém ou Jerusalém no Natal naquele ano. Apesar de contínuas revisões dessa política nos dias que se seguiram, apenas 189 dos cerca de 1000 cristãos de Gaza receberam a permissão de viajar para um desses dois destinos a fim de comemorar o Natal. Foi só no último minuto, já no dia 24, que esse número subiu a 320. Esse comportamento é constante nas autoridades israelenses. Na Páscoa, o processo também é extremamente limitado e só delibera sem qualquer explicação no último minuto. Falando sobre a “vergonhosa” medida restritiva, o Patriarca da Igreja Católica em Jerusalém, Pierbattista Pizzaballa, disse que “não existem ‘preocupações com segurança’. Nenhuma. Zero. Essas pessoas são majoritariamente mais velhas. É claramente uma decisão política”. Segundo ele, os cristãos gazanos se sentiam “deprimidos” e num “misto de fúria e resignação”. A injustiça que atingiu os cristãos incapazes de viajar a Belém neste ano foi muito maior do que se tivesse sido cometida em qualquer outro ano nos últimos séculos: em novembro de 2019, chegou a Belém, após quase 1400 anos, uma relíquia da manjedoura em que Jesus Cristo nasceu. Já os que puderam ir a Jerusalém tiveram um grande susto: um judeu entrou armado com uma faca durante a missa de Natal na Igreja do Santo Sepulcro. Incidentes assim, aliás, são pouco comuns por parte de muçulmanos naquela região. Segundo a polícia, o homem foi interrogado brevemente e solto menos de 30 minutos depois, sob a alegação de instabilidade. Ao contrário de como se procede com palestinos suspeitos de terrorismo, o porta-voz da polícia israelense se recusou até mesmo a nomear o suspeito. Tanto a Coalizão Cristã Nacional de Jerusalém quanto organizações ecumênicas cristãs-islâmicas e autoridades palestinas se manifestaram contra as atitudes oficiais de Israel no caso.

É errôneo pensar que, em Israel, subsiste na comunidade cristã um forte apego ao Estado judaico como contradição, aliás, à comunidade islâmica. De fato, naquele território, cristãos e muçulmanos (ambos etnicamente árabes, em geral) são um povo intimamente unido, em particular durante as perseguições que lhes são realizadas por Israel. O padre brasileiro Mário da Silva, único clérigo católico em Gaza, afirma não ver discriminação popular dos muçulmanos aos cristãos, por exemplo.

Nem de longe são as medidas restritivas aos cristãos gazanos as únicas já deliberadas pelo Estado de Israel em prejuízo à prática da Fé cristã em seu território.

O Centro das Igrejas Interdenominacionais, filiado ao Conselho Mundial das Igrejas, denunciou em 2016 que o Estado de Israel trabalhava no projeto de transformar Jerusalém numa cidade “exclusivamente judaica”. Nesse sentido, promove fortes barreiras ao fluxo de pessoal na Terra Santa dos cristãos. Pela primeira vez em mais de um século, Israel iniciou, sob o pretexto de “medidas de segurança patrimonial”, uma intensa mobilização para dificultar o fluxo à Igreja do Santo Sepulcro e ao Fogo Sagrado dos ortodoxos. O Judiciário israelense também obrigou em 2019 a venda de propriedades da Igreja Ortodoxa Grega em Jerusalém para uma organização ultranacionalista de colonos judeus chamada Ateret Cohanim, cujo objetivo confesso é “judaizar” a Cidade Velha. Após isso, os cabeças das igrejas Católica, Etíope, Greco-Católica, Greco-Ortodoxa, Luterana, Siríaca e outras em Jerusalém publicaram um manifesto conjunto denunciando que o Estado de Israel promove um esforço sistemático para enfraquecer a presença cristã em Jerusalém.

Quanto à Igreja do Santo Sepulcro, esta é a mais antiga igreja cristã da história e foi erguida onde se ensina que Jesus Cristo foi crucificado. Em 2018, ela foi fechada por três dias, pela primeira vez em não se sabe quantos séculos, sob decisão dos bispos locais da Igreja Apostólica Armênia, da Igreja Ortodoxa Grega e da Igreja Católica Romana, em protesto à decisão municipal de Jerusalém de cobrar tributos a propriedades de igrejas (arnona). É importante destacar que as igrejas na cidade eram isentas de tributo até no próprio Império Otomano, uma teocracia muçulmana, como também nos domínios subsequentes de Jerusalém pelo Império Britânico e pela Jordânia.

Ainda hoje circula no Knesset, o parlamento israelense, a proposta de Rachel Azaria que permite ao Estado de Israel expropriar qualquer propriedade vendida por igrejas cristãs a agentes privados desde 2010. Com sua aprovação, as igrejas serão impossibilitadas de realizar qualquer comércio imobiliário com agentes privados, porque tudo o que venderem poderá ser expropriado a qualquer momento. Enquanto isso, em novembro de 2018, as autoridades da ocupação israelense já haviam deliberadamente expropriado quase 70 acres pertencentes à Igreja Católica nas vilas de Bardala e Tayaseer para a construção de assentamentos.

É claro que nos ativemos a demonstrar o anticristianismo israelense por meio de fatos mais temporalmente atuais. No entanto, é preciso reforçar que a política anticristã de Israel, que, é claro, se aprofunda de tempos em tempos, é uma constante que ronda os cristãos locais há décadas, quase tão antiga quanto a própria criação do Estado moderno de Israel. Aliás, o Patriarca da Igreja Católica em Jerusalém de 1987 a 2008, Michel Sabbah, ali vivendo e liderando, e cuja carreira vocacional datava de 1949, um ano depois da instauração de Israel, não disfarçava seu posicionamento pró-Palestina e anti-Israel. Em 1997, a problemática anticristã de Israel atingiu o ápice: uma lei, com amplo apoio parlamentar, foi proposta visando prender qualquer um que “possuir, imprimir, reproduzir, distribuir, importar ou publicar qualquer coisa que induza à conversão religiosa”, com especial foco à conversão de judeus por cristãos. Embora a lei siga pendente no Knesset, uma estudante alemã chamada Barbara Ludwig foi deportada em 2008 sob a estranha acusação de ser uma missionária cristã.

Foi em julho de 2018 que Israel foi oficialmente consagrado um Estado judaico. Nesse sentido, a nova “Lei Básica” diz que o exercício da autodeterminação nacional em Israel é “unicamente para o povo judeu”. Em particular, é importante dizer que mais de 80% dos cristãos, em Israel, além de não-judeus, isto é, em religião, são árabes, ou não-judeus em etnia. O Estado de Israel, portanto, priva-lhes de todo o reconhecimento, elencando-os à marginalidade relativa e tornando-os estrangeiros na própria terra de Jesus, mais tolerados do que aceitos em Jerusalém.

Os cristãos e o Oriente Médio

Em seu site oficial, os Cristãos Unidos por Israel (CUFI), a maior organização sionista dos Estados Unidos da América, dizem que “Israel é o único lugar seguro para cristãos no Oriente Médio”. Após ler nosso último capítulo, todo cristão bem-intencionado trará em seu espírito a impressão certeira de que isso não chega perto de ser sequer uma meia-verdade. Mas, se Israel persegue os cristãos, concluirão muitos, quer dizer que, de fato, no Oriente Médio, os cristãos não possuem a quem recorrer. É fato, diremos então, que os cristãos são amplamente perseguidos pelos extremistas islâmicos sunitas naquela região; mas é também fato que os extremistas sunitas são os aliados regionais de Israel no Oriente Médio, e que seus inimigos xiitas, comunidade localmente mais afeita aos cristãos, são também inimigo de Israel.

A este ponto, será necessário traçar uma linha divisória que demonstre na prática quem é contra e a favor o Estado de Israel naquela região.

Em fevereiro de 2019, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, divulgou, durante a conferência sobre a Paz no Oriente Médio em Varsóvia, um vídeo em que os ministros de Relações Exteriores da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos e de Bahrein defendem o direito de Israel de existir e de se defender e dizem que confrontar o Irã é mais importante do que resolver o conflito palestino-israelense. Bahrein, Omã e os EAU têm tornado público um maior reatamento de laços com Israel. Mais cautelosa, a Arábia Saudita, histórico Estado inimigo de Israel, visando o combate ao Irã, tem, desde 2006, restabelecido seus laços com o Estado judaico, acusando o Hezbollah de ilegitimidade e encerrando seu boicote aos bens e serviços de procedência israelense, embora ainda sem relações diplomáticas oficiais. O príncipe saudita Mohammed bin Salman, em 2018, reconheceu o direito do povo judeu de ter seu próprio Estado-nação e afirmou que “existem vários interesses que nós compartilhamos com Israel e se houvesse paz, haveriam vários interesses entre Israel e o Conselho de Cooperação do Golfo” (constituído por Omã, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Qatar, Bahrein e Kuwait).

Por sua vez, o Estado de Israel mantém, em sua Lei de Prevenção à Infiltração, instituída em 1954 e revisada constantemente desde então, uma lista de “Estados inimigos” a cujos cidadãos são negados passaporte. Hoje em dia, esses Estados inimigos são Líbano, Síria, Iêmen e Irã. Destes, dois lhe são fronteiriços: Líbano e Síria. Por isso, começaremos por falar dos dois, no que tange à liberdade religiosa e aos cristãos, para depois falarmos do Irã, maior inimigo regional do eixo EUA-Israel — o Iêmen não tem hoje nenhum engajamento geopolítico ativo contra ou a favor de Israel. Então, falaremos sobre a vida dos cristãos nos EAU e na Arábia Saudita, que são os mais poderosos aliados regionais de Israel. Em seguida, trataremos das milícias radicais e anticristãs que Israel, EAU e a Arábia Saudita financiam e fortalecem na região.

É um erro pensar que Israel seja o único Estado a assegurar a liberdade religiosa no Oriente Médio. Embora não tenhamos o intuito de analisar a questão em todas as Constituições da região, nos ateremos às de duas nações: Líbano e Síria. A Constituição libanesa, promulgada originalmente em 1926, deixa claro em seu art. 9º não só que “deve haver absoluta liberdade de consciência”, como que “o Estado, ao render homenagem ao Deus Todo-Poderoso, deve respeitar todas as religiões e credos e deve garantir, sob sua proteção, o livre exercício de todos os ritos religiosos desde que a ordem pública não seja perturbada”, assegurando também, no artigo seguinte, o direito a todas as comunidades religiosas de possuírem suas próprias escolas. Embora a constituição síria de 2012 reserve ao islamismo a fonte moral de sua legislação e a religião de seu Presidente, esta também afirma, em seu art. 3º, que “o Estado deve respeitar todas as religiões, e assegurar sua liberdade de realizar todos os rituais que não prejudiquem a ordem pública”. Também no art. 33, ela garante a igualdade de direitos e deveres sem discriminação entre todos os sírios de qualquer sexo, origem, língua, religião ou credo.

O Líbano é um país de considerável população cristã. Segundo o Departamento de Estado dos EUA, estima-se que um total de 40,4% dos libaneses sejam cristãos — a maior população cristã do Oriente Médio, ou 20 vezes mais pontos percentuais do que Israel. A Câmara dos Deputados libanesa, como estabelecida no art. 24 de sua Constituição nacional, deve conter uma representação igualitária de cristãos e muçulmanos, assim como o gabinete ministerial, enquanto o Pacto Nacional de 1943 institui que o Presidente e o Comandante das Forças Armadas Libanesas devem ser ambos cristãos maronitas.

Após isso, pouco resta a dizer sobre a relação do Líbano com os cristãos. Ela é patente e não requer muitas explicações adicionais. É importante, no entanto, falar das relações com os cristãos de um elemento essencial no contexto libanês: o Hezbollah, partido nacionalista xiita antissionista, responsável pelo combate à ocupação israelense no sul do Líbano e efusivamente taxado de terrorista por várias organizações pelo mundo — o nosso Presidente da República, Jair Bolsonaro, afirmou recentemente ter a pretensão de fazer o mesmo. Embora seja oficialmente xiita, a plataforma do Hezbollah é orientada na defesa de um Estado secular e pluralista, que “dependa de pessoas capazes independente de suas crenças religiosas”, sendo seu marco determinante o nacionalismo e a preocupação com os problemas nacionais libaneses e com uma reforma modernizante das instituições democráticas libanesas. É fato que o Hezbollah possui laços estreitos com o Irã (que eles consideram o “Estado central do mundo muçulmano”) e a Síria, dos quais falaremos mais à frente.

Referindo-se à amizade entre o Hezbollah e os cristãos, o ex-encarregado das Relações Exteriores do Hezbollah, Nawaf al-Moussawi, que já havia sido membro do Movimento Patriótico Livre, um movimento nacionalista cristão maronita do qual o Hezbollah é parceiro desde 2006, disse: “Nós cremos na necessidade de boas relações com nossos parceiros cristãos no País. Seu papel — também político — é fundamental, mas a política dos americanos os sacrifica a seus interesses petrolíferos e aos de Israel. O sangue cristão derramado no Oriente Médio é responsabilidade deles: no Iraque, na Palestina e, em parte, no Líbano. No Iraque, os xiitas aspiram a viver em paz com os cristãos; a Síria é o primeiro refúgio para os refugiados cristãos iraquianos… Fazemos um apelo à Europa para que salve os cristãos dos perigos causados a eles pela política americana”. Uma reportagem do The Christian Science Monitor sobre o município de Harat Hreik, ao sul de Beirute, que tornou-se uma fortaleza do Hezbollah por concentrar o seu Quartel-General, mostra diversos depoimentos de cristãos locais sobre a vida estável e segura dos que fazem profissão cristã na vizinhança. A reportagem dá o exemplo de cristãos que optam por morar ali ao invés de em propriedades melhores na capital do Líbano por preferir a elevada segurança provida pelo Hezbollah na cidade. Rony Khoury, um morador maronita, teria dito: “Extremistas xiitas, como o Hezbollah, vêm à nossa igreja. Mas extremistas sunitas, como os salafistas, matam a mim, matam a você”. Já a moradora maronita Randa Gholam, que promove uma festa em todos os aniversários do secretário-geral do Hezbollah, Hassan Nasrallah, coloca sua foto em sua árvore de Natal e tem um grande pôster de seu rosto em sua sala, diz, afirmando poder “falar por todos os meus amigos cristãos”, que os membros do Hezbollah são “honestos. Eles não são extremistas. Não é como todo mundo descreve”.

Já na Síria, os cristãos representam uma das maiores comunidades religiosas locais.

Discute-se, entre os demógrafos, se a Cristandade síria constitui ali a segunda ou a terceira mais expressiva religião, englobando 11,4% ou 16,1% do total de cidadãos sírios. Na Síria, governa o Presidente Bashar al-Assad, eleito democraticamente em 2000, 2007 e 2014, em sucessão ao seu pai, o ex-presidente Hafez al-Assad, morto em 2000 e que serviu como Presidente da Síria desde 1971. Pai e filho são ambos associados religiosamente à vertente alauíta do islamismo xiita, que opera um intenso sincretismo com crenças cristãs. Tanto Hafez al-Assad fazia quanto Bashar al-Assad faz parte do Partido Ba’ath, um partido nacionalista pan-árabe secular de terceira posição fundado pelo cristão ortodoxo Michel Aflaq. Assim, o regime Assad possui natural vínculo com a comunidade cristã, tanto religioso quanto ideológico e partidário.

Segundo o bispo da Igreja Católica em Aleppo, Antoine Audo, 80% dos cristãos sírios, de bispos a fieis, teriam votado em Bashar al-Assad, que ele garante não ser um “demônio”, embora seja “essa a propaganda que existe no Ocidente contra ele”. Nega, também, que haja qualquer perseguição do governo contra os cristãos, afirmando, no entanto, que posaram sério perigo à comunidade cristã síria os grupos anti-Assad na guerra, que visava “desestabilizar a sociedade síria”. Referindo-se ao regime de Assad, o bispo Audo diz que “os cristãos do país encontraram no regime considerável segurança e um controle de todos os extremismos religiosos. Nós podemos até dizer que os cristãos prosperaram: nas universidades, manufatura, negócios, etc.”. Segundo Audo, “tradicionalmente, cristãos não eram perseguidos na Síria, até a guerra”, após a qual grupos rebeldes armados começaram a tomá-los por alvos devido a os verem como leais ao governo. Já o então Patriarca Greco-Católico Melquita de Antioquia, Gregorios III Laham, alegou que Assad é vítima da “manipulação e ignorância” da imprensa ocidental.

De acordo com o então Patriarca da Igreja Católica Melquita, Ignace Youssif III Younan, Assad pediu-lhe pessoalmente que dissesse às comunidades cristãs que a Síria precisa delas. Aliás, em julho de 2019, o próprio Assad veio a público dizer, num acampamento católico siríaco do qual participou, que “a originalidade cristã na Síria é necessária para impulsionar a moderação e enriquecer a diversidade” e “os cristãos [sírios] ao longo da história contribuíram, através de suas posições e de seu patriotismo, para frustrar os projetos de partição da região e enviaram uma mensagem aos inimigos da Síria e patrocinadores do terrorismo de que todos os seus projetos coloniais estão destinados a falhar”. Ele também atribuiu aos cristãos um grande papel pretérito e presente na construção da civilização síria e afirmou que “atacar a Cristandade é atacar a diversidade religiosa, cultural e civilizacional”.

Fora do discurso, Assad tem tido um papel ativo na promoção e proteção das comunidades cristãs sírias. Segundo informou o Patriarcado Greco-Melquita, por exemplo, Assad financiou quase 40 bispos e cardeais de todo o mundo para atender às celebrações do Ano de São Paulo em Damasco, em 2016.

Em 2011, logo no começo da primavera árabe na Síria, os patriarcas Greco-Ortodoxo, Ortodoxo Siríaco e Greco-Católico naquele país assinaram conjuntamente um manifesto condenando intervenções externas contra a soberania síria e apoiando as reformas prometidas pelo governo de Assad. Também Antoine Audo, bispo de Aleppo, advertiu que os revoltosos não queriam liberdade nem democracia, mas a desestabilização e islamização da Síria, assinalando que uma derrocada de Assad geraria instabilidade imediata no país. No Líbano, o patriarca da Igreja Católica Maronita, Béchara Boutros Raï, expressou profunda ansiedade em setembro de 2011 com as manifestações anti-Assad, alertando para a existência de três possíveis e dolorosos cenários futuros em caso de que caísse o líder nacional sírio e triunfassem os rebeldes: a guerra civil sectária, a divisão da Síria em mini-Estados sectários ou a criação de um Estado fundamentalista islâmico. Segundo testemunhas civis, três igrejas cristãs, durante as manifestações de 2011, teriam recebido cartas onde se lia “vocês são os próximos”, interpretadas como mensagens de que, uma vez que Assad tivesse caído, os cristãos seriam o alvo logo em seguida.

Em 2015, o Patriarca Younan afirmou que os terroristas do Estado Islâmico “receberam por anos dinheiro, armas e doutrinação religiosa da Arábia Saudita e dos países do Golfo, sob supervisão do Ocidente”. Ainda segundo ele, os governos ocidentais querem “perpetuar o conflito sem fim da Síria” e, com isso, “traíram os cristãos do Oriente”. Em outro momento, ele chegou a dizer que uma queda do regime ba’athista de Assad seria “uma hecatombe, uma catástrofe horrível” para os cristãos da região.

Por tudo isso, fica claro que os cristãos sírios preferem o governo pró-cristão de Assad do que os rebeldes terroristas financiados pelos Estados Unidos e por Israel. A Síria gera maior entusiasmo nacionalista nos cristãos do que Israel, tratando-os de maneira melhor do que o fazem os últimos. Enquanto, em Israel, os cristãos encaram ferozes perseguições e injustiças, na Síria e no Líbano, que são oficialmente encarados por aquele como Estados inimigos, os cristãos parecem encontrar prosperidade, estabilidade e segurança.

Por fim, chegaremos ao Irã. O Irã, como dissemos anteriormente, é aquele que o Hezbollah considera o “Estado central do mundo muçulmano”, não sem razão. É ele o foco de todos os ódios do Ocidente e dos sunitas do Golfo no Oriente Médio.

A Constituição do Irã, datada de 1979, assegura em seu art. 13 o reconhecimento ao cristianismo como uma das três únicas religiões não-islâmicas (ao lado do zoroastrismo e do judaísmo) com plena legalidade para exercitar suas cerimônias, promover seu próprio ensino religioso e seguir seus próprios rituais. Também de acordo com o mesmo artigo, os membros dessas religiões exercitam os ensinamentos de suas próprias religiões em matéria de status pessoal, através de cortes próprias que aplicam a lei religiosa própria de sua comunidade. Assim, por exemplo, cristãos possuem a permissão (legalmente negada aos próprios muçulmanos) de adotar crianças e membros de igrejas que não reconhecem o divórcio são proibidos de se divorciar. Logo no art. 14, a Constituição institui que “o governo da República Islâmica do Irã e os muçulmanos devem tratar os indivíduos não-muçulmanos com boa conduta, equidade e justiça islâmica, e devem respeitar seus direitos humanos”. Mais à frente, no art. 64, sobre a Assembleia Consultiva que constitui o Poder Legislativo iraniano, a Constituição assegura a eleição de três cadeiras exclusivas para a minoria cristã. Essas cadeiras, aliás, já são mais do que as duas previstas inicialmente na Constituição em 1979, isto é, o Irã tem progressivamente expandido os direitos políticos dos cristãos. O mais impressionante, no entanto, é o fato de que a Assembleia Consultiva seja composta por 270 cadeiras, tornando essas três cadeiras cristãs representativas de 1,1% da representação política iraniana, ainda que os cristãos locais constituam a soma de 0,4% da população iraniana total! Assim, no Irã, onde mal existem cristãos, estes possuem quase 3 vezes maior porcentagem de cadeiras parlamentares do que de fieis; em Israel, onde há mais cristãos proporcionalmente do que no Irã, embora estes não possuam nenhuma cadeira reservada por lei, só têm como representantes, no 22º Knesset, eleito em setembro de 2019 (mas já com novas eleições marcadas para março de 2020), uma porcentagem de ¾ do total de cristãos em seu território.

É fato que, no Irã, muitos cristãos têm tido um papel de propagação do sionismo, do ocidentalismo e do americanismo, contrários, portanto, aos princípios filosóficos e políticos do regime. Assim, há um atrito incontestável do Estado iraniano com certos setores cristãos. O fato, contudo, é que, por si mesmo, o Irã — que, em caso de o Brasil entrar como país aliado da OTAN, terá a nós, como sugestivamente apontou John Bolton, então conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, por adversários — garante direitos religiosos e políticos aos cristãos de maneira maior do que quase todos os outros Estados no Oriente Médio. Aliás, em discurso privado a clérigos islâmicos, em 2019, o Ministro de Inteligência do Irã alertou-lhes sobre o crescimento expressivo de conversões ao cristianismo entre islâmicos iranianos, dizendo que não caberia ao seu serviço cuidar dessas conversões e tratando a elas como coisas de interesse dos clérigos muçulmanos, mas não do Estado. Só na capital do Irã, Teerã, existem 37 templos cristãos, dos quais 16 são ortodoxos, 11 são católicos e 10 são protestantes. Nos últimos anos, a maior pauta da política externa de Israel tem sido o combate à hegemonia regional do Irã. Visando a proteção aos cristãos, o Brasil pode terminar por se envolver num projeto político e geopolítico anticristão e, parafraseando Joseph M. Canfield, em passagem que citamos ao falar sobre o sionismo dispensacionalista no começo deste artigo, “motivado por preocupações remotas à fidelidade à pessoa, obra e verdade de Jesus Cristo” — e é particularmente alarmante o fato de que o Brasil sediará a conferência sobre a Paz no Oriente Médio de 2020, da qual participou em Varsóvia em 2019, cuja principal pauta é o combate ao Irã.

A rivalidade de Israel perante o Líbano, a Síria e o Irã (como também ao Iraque Ba’ath, de Saddam Hussein, derrotado com sucesso numa icônica manobra de manipulação geopolítica que segue sem explicações) é de longa data (e não carrega o menor traço de preocupação com a comunidade cristã). Existem dois documentos que traduzem objetivamente, em termos explícitos, as ambições regionais de Israel. O primeiro deles é o Plano Yinon, publicado em 1982. O segundo, mais popular, é conhecido como “Relatório Clean Break” e foi publicado em 1996. Para entendê-los, será primeiro preciso compreender um conceito fundamental no imaginário político dos sionistas: o da “Grande Israel”, sintetizado no bordão “do Nilo ao Eufrates”. Não cremos ser possível, sendo judeu, esquivar-se de compreender essa área como a pátria natural de direito divino dos judeus, porquanto o Senhor diz a Abraão (Gn 15,18): “Eu dou esta terra aos teus descendentes, desde o rio do Egito até o grande rio Eufrates”. Enquanto o cristão idealmente entende a si mesmo como a descendência de Abraão, seguindo a palavra de Paulo em Gl 3,29 e Rm 3,6-8, é impossível a um judeu que não tenha pela descendência de Abraão aos “filhos da carne”, isto é, à etnia judaica. Por isso Theodor Herzl, o fundador e principal ideólogo do sionismo moderno, escrevia em seu Diário, conforme publicado pela Fundação Theodor Herzl no vol. 2 dos The Complete Diaries of Theodor Herzl, p. 711, que o Estado judaico deveria abranger a área “do Rio do Egito [Nilo] ao [Rio] Eufrates”.

O Plano Yinon foi publicado no jornal judaico Kivinum, órgão oficial da Organização Sionista Mundial, fundada pessoalmente por Theodor Herzl e principal organização de defesa do sionismo, em Jerusalém. Seu autor era Oded Yinon, alto oficial do Ministério de Relações Exteriores de Israel. Seu argumento principal é que, para sobreviver, Israel deve dissolver todos os Estados não-judeus do Oriente Médio e convertê-los em pequenos Estados sectários divididos entre si. O tradutor e prefaciante, Israel Shahak, é taxativo quando impõe, logo no primeiro parágrafo do prefácio, que o plano do regime sionista de Israel no Oriente Médio consiste na “divisão de toda a área em pequenos Estados, e a dissolução de todos os Estados árabes existentes”. Yinon não poupa palavras: ele é claro sobre a necessidade de que o Líbano se fragmente em cinco províncias e o Iraque e a Síria em áreas étnica ou religiosamente únicas. Diz, por exemplo: “O Iraque, rico em petróleo por um lado e dividido internamente por outro, é um alvo garantido para os objetivos de Israel. Sua dissolução é ainda mais importante para nós do que a da Síria”. E, no mesmo parágrafo: “Todo tipo de confronto inter-árabe nos ajudará a curto prazo e encurtará o caminho para o objetivo maior de destruir o Iraque em denominações assim como a Síria e o Líbano”. Estranha coincidência! Tem tudo se cumprido com maestria, com o financiamento de Israel a rebeldes sectários em todos esses países e a queda mais imediata do Iraque perante as outras nações inimigas de Israel.

Por sua vez, o Plano Clean Break foi finalizado em 1996 por Richard Perle, Secretário Assistente de Defesa para Assuntos Globais dos Estados Unidos. Ele é atribuído formalmente ao Instituto Para Estudos Estratégicos e Políticos Avançados, um think tank neoconservador. Constituía um relatório político encomendado pelo então primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, que também governa atualmente (janeiro de 2020) e só tem uma deposição prevista para após eventual derrota nas eleições do Knesset em março. Visando objetivamente transformar Israel na “base” do Oriente Médio, o plano fala detalhadamente sobre “conter” a Síria, depor Saddam Hussein e redesenhar as fronteiras territoriais da Síria e do Iraque.

Longe, portanto, de uma fidelidade religiosa a Cristo ou aos cristãos, Israel tem um objetivo bem delineado de supremacia e expansão regional, que necessariamente perpassa uma estratégia de contenção justamente dos países ostensivamente apontados pelos “analistas” cristãos do Ocidente (e só do Ocidente) como ativos promotores do terrorismo anticristão.

Do outro lado, falaremos, agora, sobre os aliados mais poderosos de Israel: os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita.

Nos Emirados Árabes Unidos, a única menção à liberdade religiosa em sua Constituição restringe-a ao culto “de acordo com os costumes estabelecidos”, um conceito vago e sem maiores explicações. Segundo o art. 1º do seu Código Penal, os crimes hudud (conceito previsto na Sharia que traduz os “crimes doutrinais” ou crimes contra Deus, cujas punições são obrigatórias e fixadas por Deus) são punidos de acordo com as provisões da Sharia. Entre os crimes entendidos como hudud, inclui-se o de apostasia, isto é, sair do islamismo, cuja pena segundo a Sharia é a morte. Assim, todo islâmico que se converta a qualquer religião, inclusive o cristianismo, no território legal dos EAU, é punível com a morte. É também proibida a exibição de cruzes na fachada das igrejas. Todo cristão que se casar com uma mulher muçulmana é punido com a prisão.

Mas há um país que, rigorosamente, não tem qualquer apreço pela liberdade de não-muçulmanos. É o que tem se tornado o maior aliado de Israel no Oriente Médio e ganhado o progressivo apreço dos Estados Unidos e, agora, do Brasil de Bolsonaro: a Arábia Saudita. Embora os sauditas proclamem que sua Constituição seja “o Corão e as Sunas”, estes possuem uma coleção de leis sob o título de Lei Básica de Governança que bem agem como um texto constitucional. Logo em seu art. 9º, é dito que os “membros [das famílias sauditas] devem ser trazidos às bases do credo muçulmano e de sua exigência de aliança e obediência a Deus, ao Seu Mensageiro [Maomé] e àqueles em autoridade”. O art. 13 institui que “a educação deve buscar incutir o credo islâmico na juventude”. Não há um só artigo em defesa da liberdade religiosa ou da igualdade entre os cidadãos. É fato que a Arábia Saudita é uma teocracia islâmica wahhabista. A este ponto, será necessário delinear uma ideia importante para a compreensão da geopolítica do Oriente Médio: o wahhabismo. Tanto a Arábia Saudita quanto a al-Qaeda, a al-Nusra, o Talibã, o Estado Islâmico e praticamente todos os grupos jihadistas ativos nas últimas três décadas têm um elo ideológico em comum. Esse elo é a adesão doutrinária ao wahhabismo.

O wahhabismo foi fundado por Muhammad ibn Abd Wahhab, que pregou na península arábica no século XVIII com forte influência dos ensinamentos de Ibn Taymiyyah. A principal ambição de sua doutrina era realizar uma “purificação” do islã, que entendia haver sido corrompido de sua pureza original, pregando o retorno à suposta fé dos Salaf, as três primeiras gerações islâmicas, isto é, o salafismo. Em 1744, Wahhab firmou um pacto com Muhammad ibn Saud, então emir da cidade de Diriyah. Os dois juraram começar um movimento para unificar os muitos Estados da península arábica, libertá-los do Império Otomano e convertê-los ao islamismo “puro”, salafista. O pacto foi selado com sangue quando a filha de Wahhab casou-se com o filho de Saud, Abdul-Aziz bin Muhammad. Assim nasceu a casa de Saud, que segue como a dinastia reinante da Arábia Saudita. Ainda hoje, a casa de Saud compartilha o poder com os outros descendentes de Wahhab, os Al ash-Sheikh, que detêm a liderança religiosa dos sauditas. A introdução do reino salafista de Saud ao mundo foi violenta: em seguidas investidas, eles invadiram, saquearam e massacraram várias cidades, inclusive a própria Meca, destruindo o túmulo de Maomé para evitar a prática de “idolatria”. Foi só em 1813 que o sultão do Egito, Muhammad Ali, furioso, investiu com seu exército de maneira que derrotasse os sauditas, arrastasse-os ao deserto de Nejd e devastasse a cidade de Diriyah, então capital do emirado de Saud. Mas, exato um século depois, o exército de elite que Abdul-Aziz Ibn Saud, outro rei saudita, vinha preparando pelos últimos 11 anos, estava finalmente pronto. Era a Ikhwan (Irmandade), que inicialmente investiu na conversão de comunidades xiitas. Assim que estourou a Primeira Guerra Mundial, o rei saudita foi encorajado por oficiais da inteligência britânica a se revoltar contra o Império Otomano. Entre os séculos XVIII e XIX, fora o Império Britânico a ter assegurado ao Primeiro Reino Saudita autonomia para se expandir em território otomano. Quando decidiu fundar a Ikhwan, Abdul-Aziz encontrava-se exilado no Kuwait, sob forte proteção britânica. Já durante a guerra, segundo o tratado de amizade anglo-saudita, as terras sauditas, uma vez independentes, tornar-se-iam protetorados britânicos, desde que não atentassem contra os outros protetorados britânicos na região, como o Qatar e os Emirados Árabes Unidos. Ao mesmo tempo, os britânicos prometeram ao Sharif Hussein bin Ali o total apoio à independência dos árabes num Estado unificado, inclusive cedendo-lhe o título de “Rei dos Árabes”. Cerrava fileiras com o Sharif Hussein Lawrence da Arábia, um nacionalista árabe de procedência britânica, religiosamente cristão anglicano, que destacou-se durante a Primeira Guerra Mundial por seus notórios e heroicos serviços ao serviço secreto e às Forças Armadas do Reino Unido. Hussein perdeu muitos aliados por sua posição pró-Ocidente e, ao contrário de Ibn Saud, que pretendia radicalizar a totalidade da umma na regra de Wahhab, tinha objetivos modestos: buscava apenas criar um Estado nacional soberano árabe e proteger os Dois Locais Sagrados, Meca e Medina, cujos cemitérios e templos os sauditas vinham por séculos invadindo e devastando. No entanto, tão logo a guerra terminou, tanto a Inglaterra quanto a França aplicaram leis coloniais próprias à Palestina, à Síria e ao Iraque. Sentindo-se traído, Hussein abdicou de ratificar qualquer acordo com os ingleses, abrindo espaço para o domínio regional por Saud, que foi nomeado cavalheiro (Sir) pela Coroa inglesa. Assim, sob as asas dos interesses internacionais britânicos — os mesmos que, nesse mesmo período, em 1917, publicaram oficialmente a declaração de Balfour do Império Britânico, favorecendo a criação de um Estado judaico na Palestina — e a partir da Ikhwan, os sauditas se consolidaram, com Abdul-Aziz assumindo o trono dos Reinos de Hejaz e Nejd, que em 1932 se unificaram na moderna Arábia Saudita.

Foi natural o desenvolvimento disso para o moderno Estado Islâmico. Estabelecida e impulsionada pelo Ocidente, a Arábia Saudita financiou (e, em si mesma, promoveu) a expansão da doutrina wahhabista pelo mundo islâmico, desde a Bósnia até as Filipinas. A Arábia Saudita é a concretização da regra de Wahhab no mundo; ela não pode ser, em nenhuma instância, dissociada de qualquer desenvolvimento wahhabista mais contemporâneo, da al-Qaeda ao Estado Islâmico. Nenhum deles poderia existir sem a Arábia Saudita, como a Arábia Saudita não poderia existir sem o wahhabismo. Tamanho vínculo que o curriculum saudita era oficialmente aplicado pelo Estado Islâmico — a pretensa Arábia Saudita do Norte — em suas salas de aula, assim como todos os livros escolares eram diretamente importados da Arábia Saudita.

Se nos atemos a falar sobre o wahhabismo em si mesmo, é por crer que já seja de conhecimento público a informação de que os movimentos wahhabistas promovem a perseguição física contra os cristãos, simbolizada na decapitação pública de cristãos pelo Estado Islâmico. No entanto, dado o caráter religioso que toma hoje o sionismo em seus defensores, não será imprevisto que venham sionistas a responder-nos alegando tolerância destes grupos com as comunidades cristãs… a estes, bastará rememorá-los da 7ª edição da revista Dabiq, periódico oficial do Estado Islâmico no Ocidente, quando nomeava os cristãos um de seus alvos principais, conclamando a uma “guerra santa” (jihad) contra estes.

Israel e o terrorismo

Ainda há muito o que se investigar sobre o envolvimento concreto da Arábia Saudita com o terrorismo. Em e-mail privado de 2014 a John Podesta, divulgado pelo WikiLeaks, Hillary Clinton, secretária de Estado dos EUA entre 2009 e 2013, alertou para a necessidade de se “começar a pressionar os governos do Qatar e da Arábia Saudita, que estão provendo apoio financeiro e logístico clandestino ao Estado Islâmico e a outros grupos sunitas radicais na região”.

O Príncipe Turki Al-Faisal, diretor-geral do serviço saudita de inteligência, o Al Mukhabarat Al A’amah, foi quem assumiu o elo entre a inteligência americana e Osama bin Laden, quando este era um líder mujahideen na luta contra a União Soviética no Afeganistão, e resignou ao seu cargo, em que permaneceu por 24 anos, apenas dez dias antes do 11 de setembro, sem nenhum esclarecimento adicional. Turki, membro da família real saudita (casa de Saud), tinha excelentes relações com o Talibã e era um dos únicos estrangeiros a ter contato direto e cordial com Mullah Omar, líder e fundador do Talibã e chefe de Estado do Afeganistão desde 1996, quando acolheu bin Laden em seu território. É importante lembrar que todos os 14 sequestradores dos aviões que colidiram nas Torres Gêmeas do World Trade Center eram cidadãos sauditas. Segundo a investigação do FBI, o Ministério da Defesa saudita teria enviado “salários” mensais a partir de fins de 1999 para Omar al-Bayoumi, membro da inteligência saudita, que proveu assistência substancial a dois dos sequestradores, Khalid al-Mihdhar e Nawaf al-Hazmi, quando estes viajaram a San Diego, em fevereiro de 2000. Al-Bayoumi mudou-se para San Diego para estudar com financiamento completo do governo saudita. Ele encontrou os que seriam futuros sequestradores pouco depois de sair de uma reunião no consulado saudita. Em abril, dois meses após receber os futuros sequestradores em San Diego, esses salários aumentaram consideravelmente, estabilizando em dezembro. Al-Bayoumi tinha laços estreitos e de longa data com Osama Bassnan, a quem apresentou os dois sequestradores e que afirmou categoricamente a uma fonte do FBI: “Eu fiz mais pelos sequestradores do que Al-Bayoumi”. Tendo trabalhado anteriormente na Missão de Educação da Arábia Saudita e sendo alegadamente membro da inteligência saudita, Bassan recebeu fundos e um passaporte falso de oficiais do governo saudita, segundo a CIA. O FBI constatou também que Bassnan era vinculado ao Jihad Islâmico Eritreu e ao sheikh Omar Abdel-Rahman, um dos responsáveis pelo ataque terrorista à Torre Norte do World Trade Center em 1993. A irmã do Príncipe Turki, Princesa Haifa, também teria enviado “salários” mensais à esposa de Bassnan, totalizando US$74 mil, sob a justificativa de pagamento por “serviços de enfermagem”, embora não haja indicações de que ela prestasse serviços de enfermagem. Hoje, Al-Bayoumi estaria vivendo tranquilamente no interior da Arábia Saudita. Segundo o relatório de um oficial da CIA, alguns dos sequestradores, ao estar nos EUA antes do ataque, teriam mantido contato com vários oficiais do governo saudita, inclusive dois membros da inteligência nacional saudita. Entre os contatos telefônicos de Abu Zubaida, um importante oficial da al-Qaeda, capturado no Paquistão em 2002, constava o da Aspcol Corporation, responsável por administrar os negócios do embaixador saudita nos EUA entre 1983 e 2005, o Príncipe Bandar bin Sultan Al Saud. Os laços de pessoas da embaixada saudita em Washington com os terroristas se estende infinitamente. Um dos seguranças da embaixada também constava nos contatos de Abu Zubaida, assim como trabalhava ali como oficial administrativo o irmão de Osama bin Laden, Abdullah bin Laden, intimamente associado a grupos extremistas. Muitas outras autoridades sauditas tiveram expostas suas relações financeiras com indivíduos e associações vinculadas a bin Laden através de doações de “caridade”. Permanecem obscuros (estranhamente obscuros, por estranho descaso policial) possíveis laços de Israel com o mesmo evento, cujo mais icônico indício são os “dancing israelis”, agentes do Mossad apreendidos em alegre comemoração ao ataque às Torres Gêmeas sobre vista privilegiada, representando um vínculo muito mais direto entre um Estado e o ataque do que qualquer outra evidência de associação com a Arábia Saudita…

A Arábia Saudita não parece ter encerrado suas atividades no financiamento do terrorismo com o 11 de setembro. Desde então, pipocaram novas iniciativas wahhabistas, das quais a mais famosa foi o Estado Islâmico. No entanto, o Estado Islâmico contou também com o apoio substancial de outro Estado na região: Israel. É importante lembrar que o Estado Islâmico, em sua configuração definitiva e mais fortalecida, sob a forma de califado liderado por Abu Bakr al-Baghdadi, não foi mais do que um desenvolvimento dos rebeldes anti-Assad na Guerra Civil Síria. Assad era combatido em maior parte durante os levantes sírios por manter um Estado secular e não-fundamentalista, dando proteção a minorias religiosas não-islâmicas. O Estado Islâmico ingressou na Síria formando a Jabhat al-Nursa, em 2012, que tomou a frente da luta anti-Assad. Os dois só se dissociaram, com a conjunta dissociação daquele e da al-Qaeda, entre 2013 e 2014. O comandante das Forças Armadas de Israel entre 2015 e 2019, Gadi Eizenkot, afirmou que Israel forneceu armamento militar aos grupos rebeldes sírios, que incluíam o Estado Islâmico e a al-Nusra (da qual faziam parte a maioria dos rebeldes) como frentes mais proeminentes, para fins de “autodefesa”. Durante a Guerra Civil, esse fornecimento vinha sendo reportado tanto pelo regime Assad, que noticiava a apreensão de armas e munições israelenses, quanto pelos próprios rebeldes. Eizenkot também confirmou que Israel deu cobertura aérea a esses rebeldes, realizando entre 200 e 400 ataques aéreos contra os governistas na Síria. Em entrevista, Bashar al-Assad chegou a dizer que há uma piada popular na Síria: “Como você pode dizer que a al-Qaeda não tem uma força aérea? Eles têm a força aérea de Israel”. A investigação da revista Foreign Policy foi mais específica: segundo eles, a partir de entrevistas e apurações em campo, Israel forneceu, até julho de 2018, fuzis de assalto, metralhadoras, morteiros e veículos de transporte a pelo menos 12 grupos rebeldes, além de pagar US$ 75 por mês aos rebeldes e suprir fundos adicionais aos grupos para comprar armas no mercado negro sírio. A revista, porém, não revela o nome dos grupos. Mas maiores do que as contribuições de Israel, ainda segundo a apuração, eram as contribuições de quatro outros países: Qatar, Arábia Saudita, Turquia e Estados Unidos.

Além do apoio militar, Israel promoveu intensa ajuda médica a rebeldes sírios feridos nas colinas de Golã. Segundo eles próprios reconheceram, dois terços das pessoas tratadas eram homens em idade de disponibilidade militar.

De acordo com o diretor da Inteligência Militar de Israel entre 2006 e 2010, Amos Yadlin, o Hezbollah e o Irã são uma ameaça “muito maior” para Israel do que os terroristas islâmicos que eles combatem. “Esses elementos sunitas [como a al-Nusra e o Estado Islâmico] que controlam de dois terços a 90% da fronteira em Golã não estão atacando Israel. Isso te dá uma base para pensar que eles entendem quem é seu verdadeiro inimigo — talvez não seja Israel”, completou. É icônico o caso relatado pelo ministro israelense de Defesa entre 2013 e 2016, Moshe Ya’alon, segundo o qual o Estado Islâmico pediu desculpas a Israel após atacar soldados israelenses nas colinas de Golã, em novembro de 2016. De fato, não existem outros registros de ataques da al-Nusra ou do Estado Islâmico a Israel nas colinas de Golã, que demarcam a fronteira entre Israel e a Síria.

No Oriente Médio como no mundo, é em torno do eixo wahhabi-sionista que gira todo o terrorismo islâmico. O wahhabismo lhe oferece a base e a doutrina; o sionismo lhe oferece todo o suporte de que necessitam. Ambos carregam entre si a marca de uma profunda intimidade. Qual outro país no Oriente Médio tem maior interesse em Israel que não sejam os sauditas? É porque os interesses sionistas de Israel, em si mesmo ou no ideário da Grande Israel, como os interesses wahhabistas da Arábia Saudita, que são os mesmíssimos do Estado Islâmico e da al-Qaeda, sintetizam-se em formidável unidade de projeções regionais. Israel quer levar a cabo os planos de Theodor Herzl, de Oded Yinon e de Richard Perle, expandindo-se, consolidando-se como liderança estável e suprema e destruindo seus inimigos regionais; a Arábia Saudita quer levar a cabo os planos de Muhammad ibn Abd Wahhab, estendendo sua influência até o ponto da supremacia doutrinária salafista no mundo islâmico, a umma. Qual outro plano seria mais palatável a ambos do que o de enfraquecer e sabotar os seus inimigos xiitas comuns? O que mais agradaria a Israel do que um caminho de fragmentação no Oriente Médio, impulsionada pelo terrorismo salafista, que conduza a um novo caminho do seu fortalecimento?

Tem sido um tabu, no Brasil, tratar o terrorismo islâmico como algo além de uma organização civil, autônoma e subterrânea. É preciso tomar o passo à frente e entendê-lo como aquilo que é: o produto de políticas estatais a serviço de interesses nacionais externos. Fazendo isso, será imperativo estudar o papel de Israel e da Arábia Saudita neste complexo.

O Brasil e o Oriente Médio

Corre no Brasil, como se denota empiricamente, a ideologia sionista com força avassaladora. Diz-se que, sendo o Brasil um país cristão, é preciso que abençoe Israel, porque diz o Senhor no Gênesis: “Abençoarei aqueles que te abençoarem, e amaldiçoarei aqueles que te amaldiçoarem; todas as famílias da terra serão benditas em ti” (12,3).
Caso o leitor tenha caído neste capítulo de paraquedas, esclarecemos ter tratado Israel no campo teológico em nossa primeira seção. Lá, analisando friamente as Escrituras e a Tradição, concluímos que o sionismo, associando o Estado de Israel à Israel do Antigo Testamento, não encontra qualquer base teológica, bíblica ou histórica que se adeque à Verdade. Dissecamos ainda as raízes históricas e teológicas da doutrina sionista moderna, fundada na escatologia dispensacionalista, que se popularizou no século XX.

Ora, sendo assim, não há qualquer compromisso (antes o contrário) de um cristão, por ser cristão, com o Estado de Israel. Mas e quanto a um brasileiro, enquanto brasileiro? Haverá um compromisso necessário, imperativo que una o Brasil a Israel, sem dizer respeito à religião? Por que, se não por uma questão religiosa, o Brasil entraria em profunda comunhão com Israel, isto é, segundo interesses materiais, políticos ou mesmo históricos?

Primeiro, gostaríamos de resgatar a história das relações diplomáticas Brasil-Israel, desde a fundação de Israel pela ONU, entre 1947 e 1948, até o fim do regime militar. Por meio disto, cremos encontrar subsídios para analisar, a partir de relações históricas de poder, as condições reais da diplomacia entre as duas nações no presente e no futuro.

Coube ao diplomata brasileiro Oswaldo Aranha, chefe da delegação brasileira na ONU, a presidência da primeira sessão especial da Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1947, quando se votou pela resolução 181, que instaurava oficialmente o Estado de Israel. Como chefe da delegação brasileira, Oswaldo Aranha votou pela resolução e promoveu ativo lobby em seu favor. Segundo a resolução 181, os judeus, que demograficamente constituíam 32% do Mandato Palestino e ocupavam 6% de sua área territorial, receberiam um Estado com cerca de 56% do total dessa área, cabendo aos árabes cerca de 43%. Quanto a Jerusalém, esta seria administrada internacionalmente através da ONU. Após a Guerra Árabe-Israelense, de 1948, contudo, Israel expandiu consideravelmente suas fronteiras para além do planejamento inicial da resolução 181. Por isso mesmo, o Brasil absteve-se de votar sua admissão à ONU, através da resolução 273, de 1949.

Em 1956, o Egito nacionalizou o Canal de Suez e bloqueou a passagem de navios israelenses. Isso motivou uma tensão crescente na região, com imediato ataque militar por Israel e ameaças bélicas da França e da Inglaterra. No ano seguinte, o Brasil votou a favor da resolução 1001 da Assembleia Geral, que dispunha sobre a supervisão do cessar-fogo entre Egito e Israel, o estabelecimento de zona desmilitarizada no Sinai e na faixa de Gaza e o monitoramento da retirada das tropas francesas, israelenses e britânicas da região do Suez. Junto a isso, o Brasil se comprometeu com a Força de Emergência das Nações Unidas (UNEF I), enviando a partir de 1957 cerca de 600 soldados por ano para a região, com a soma total de cerca de 6300 soldados empregados pelo “Batalhão Suez” em 1967. Entre 1964 e 1966, coube ainda ao Brasil o comando operacional da UNEF I, por meio dos generais Paiva Chaves e Syseno Sarmento. Durante esse período de uma década, segundo os veteranos das Forças Armadas do Brasil, os soldados brasileiros desfrutavam de ótima relação com os palestinos locais, não simpatizando com os soldados israelenses. Em maio de 1967, o Egito solicitou a retirada das tropas da UNEF I, que começou a ser processada pela ONU a partir do final daquele mês. Quando, menos de um mês mais tarde, eclodiu a Guerra dos Seis Dias, o governo brasileiro, por motivos logísticos, ainda não tinha sido capaz de retirar todos os soldados brasileiros da faixa de Gaza. Permaneciam 430 brasileiros na base do Brasil na vila de Rafah. Crendo que a base brasileira estivesse tomada por forças palestinas, as Forças de Defesa de Israel puseram-na sob fogo cerrado logo ao primeiro dia da guerra. Os soldados brasileiros permaneceram inalterados. Durante o tiroteio unilateral, foi assassinado com um tiro no pescoço por um soldado israelense o Cabo Carlos Adalberto Ilha de Macedo.

Em seguida à Guerra, Israel anexou para si um território considerável das nações árabes, razão pela qual o Brasil subscreveu a resolução 242 da ONU, posicionando-se a favor da retirada de Israel dos territórios ocupados. As relações do Brasil com os países árabes em detrimento de Israel intensificaram-se especialmente a partir dos governos de Médici e Geisel, conservadores cristãos e nacionalistas tão bem quistos pela direita brasileira de hoje. Em 1974, o ministro das Relações Exteriores do governo Médici, Gibson Barboza, nos últimos dias antes da posse de Geisel, recebeu oficialmente em Brasília o chanceler libanês e representante da Liga dos Estados Árabes, Fouad Naffah. Na ocasião, o Brasil declarou ser a favor de que o Estado de Israel se retirasse imediatamente de todos os territórios ocupados na Guerra dos Seis Dias, em 1967, e solucionasse a questão palestina. No mesmo ano, o Brasil apoiou a resolução 3236, que concedia à Organização para a Libertação da Palestina (OLP), liderada por Yasser Arafat, o status de membro observador na ONU.

Geisel agiu de acordo com essa política estabelecida pelo governo Médici. Ele possuía uma posição clara sobre o hábito diplomático brasileiro de abster-se em votações nas quais poderia desagradar os norte-americanos. “Se o Brasil tem uma opinião, ele tem que defender o seu ponto de vista e votar de acordo com a sua convicção”, dirá ele nos anos 90. Na Assembleia Geral da ONU em 1975, Geisel autorizou o voto do Brasil em favor da Resolução 3379, que caracterizava o sionismo como um tipo de racismo, mantendo o voto mesmo após os protestos públicos do Departamento de Estado dos EUA. “Estou convencido até hoje de que o sionismo é racista. Não sou inimigo dos judeus, inclusive porque com matéria religiosa sou muito tolerante. Mas como é que se qualifica o judeu, quando é que o indivíduo é judeu? Quando a mãe é judia. O judaísmo se transmite pela mãe. O que é isso? Não é racismo? Por que eu não posso declarar isso ao mundo?”, dirá duas décadas depois. No mesmo ano, o Brasil estabeleceu oficialmente relações com a OLP, autorizando-a a designar um representante para atuação em Brasília. Mais tarde, em 1977, ainda durante o governo Geisel, o Brasil votou a favor da resolução 32/40, que estabelecia uma comemoração anual do dia 29 de novembro como “Dia Internacional da Solidariedade com o Povo Palestino”.

Poderia-se estender este capítulo indefinidamente, porque prosseguiram-se mais de 40 anos de história recente das relações Brasil-Israel. Contudo, cremos que esta fração da história poderá dizer mais a um brasileiro que ainda conserve sua consciência do que toda a história recente.

Contrariando essa tradição (e não que absolutizemos a tradição, mas que lhe demos uma alta importância na interpretação e posterior condução da vida nacional), os sionistas brasileiros, hoje, criam um alinhamento geopolítico artificial, fetichista e subserviente, não interessado com os interesses do Brasil, mas com uma lealdade religiosa a um Estado ilegítimo. Lideram o lobby sionista no Brasil figurões notórios, como o “tio do Filipe G. Martins” (o Filipe, figurão-mor da política nacional brasileira de hoje), o “Barão de Fullwood”, Camilo Agasim Pereira, que assume a identidade de judeu e é procurado na Escócia por estelionato e sonegação e na África do Sul por roubo, tráfico de armas e crimes relacionados a pornografia, com ficha na Interpol por tráfico de armas e que, fora seu ativo papel nos bastidores pela aproximação com Israel, condecorou pessoalmente o embaixador israelense Yossi Shelly com a Comenda da Grã Cruz do Mérito Cívico e Cultural, comenda falsa, criada por ele mesmo, ao lado e sob chancela do Presidente Bolsonaro… E, se quiserem seguir inebriados de um americanismo por igual perverso, que ao menos leiam o trabalho de John Mearsheimer e Stephen Walt, que esmiúçam o papel do “lobby de Israel” na política norte-americana, demonstrando como se trabalha nos EUA para ludibriar patriotas americanos na tese falsa e anti-americana de que “os interesses de Israel são os interesses dos EUA” (tese a pautar hoje o sionismo conservador brasileiro, onde o lobby judaico pró-Israel ainda apenas engatinha!).

E quais serão os resultados disso tudo para o Brasil, cujo ato mais simbólico de adesão ao sionismo será a transferência da embaixada brasileira para Jerusalém, sobre a qual não detêm nenhum direito os judeus? Não somos nós os maiores exportadores de carne Halal no mundo, isto é, carne abatida conforme os preceitos islâmicos e que representa quase metade da produção de carne de frango no Brasil? Não representaram os países árabes (e o Irã) mais de um terço das compras de carne de frango e Halal exportadas pelo Brasil em 2017, e não forneceu o Brasil nesse ano quase 52% da proteína animal dos países árabes? O comércio com os países árabes (em geral, sem especificações religiosas) é amplo e define parcela considerável da balança comercial brasileira. Os árabes possuem um mercado consumidor muito maior do que Israel. Por uma ideologia falsa e perversa, que manipula seus mais legítimos sentimentos religiosos cristãos, quanto mal não poderá o governo fazer ao bem-estar da família brasileira?

Como, enfim, poderá o governo negar a massiva e fundamental influência árabe em nossa civilização, na medicina, na agricultura, na culinária, no vocabulário e na arquitetura? Como poderá desprezar um povo que tão patrioticamente construiu nosso país, largando seus lares no Oriente por uma sólida imigração para o Mundo Novo, a luminosa Hy-Brazil, em cujo futuro glorioso serão contados entre os seus espíritos fundadores? Como poderá preteri-los por uma comunidade que lhe é quase 10 vezes inferior, numericamente, no território brasileiro, e cuja contribuição à nossa cultura e constituição foi incomparavelmente inferior?

O Brasil tem uma dívida moral, histórica, com o povo árabe. Mais do que isso: os árabes são para ele de importância econômica e política. Nada além de uma torta e política concepção teológica poderia justificar o sionismo para um brasileiro, como para um cristão.

Conclusão

O sionismo, de que resulta a transferência da embaixada brasileira para Jerusalém, representa um grave perigo geopolítico para o Brasil. Por essa razão, esta é rejeitada por quase a totalidade do Itamaraty, em cuja longa tradição de pragmatismo muito sofreram os ideólogos do sionismo. Por qual motivo deveria o Brasil promover um alinhamento geopolítico estreito e ideológico com El Salvador, um minúsculo Estado sem qualquer relação histórica, comercial ou territorial conosco, ainda que este comprometesse nosso comércio e demais relações internacionais, se não restará em retorno qualquer benefício mais amplo? É, rigorosamente, a mesma situação. Na verdade, o alinhamento cego a El Salvador ainda restaria muito mais compreensível para o Brasil do que ao Estado de Israel, porque aquele é muito mais próximo geograficamente de nós — Israel nos é separado por uma distância de um oceano e dois continentes! Seria passível de compreensão, no entanto, que se promovesse o alinhamento a Israel como um projeto intimamente ligado a princípios religiosos cristãos. Mas esses princípios, como deixamos posto de maneira cabal e irrefutável, são falsos, à luz reta de qualquer vertente do cristianismo. Na verdade, o Estado de Israel só seria passível de agradar ao povo judeu; mas, em si mesmo e em seus fundamentos ideológicos é absolutamente herético à luz da própria religião judaica e em seu produto é secular e imoral, justificando sua rejeição absoluta nos setores do judaísmo ortodoxo. De fato, o alinhamento a Israel, para os brasileiros, não é apenas “inútil” ou, na melhor das hipóteses, “neutro”: é realmente maligno, porque é o aval deliberado e despido de sentido político a um Estado anticristão. Dirão eles que o Estado de Israel não é mais do que a justa compensação ao povo judeu pelo Holocausto; diremos nós, contudo, que a declaração de Balfour data já de 1917, como seguem-se desde então (até 1945) multíplices documentos oficiais sobre a instauração do Estado judaico na Palestina, enquanto aguardamos semelhante preocupação tão ardente com tantas repúblicas de povos vitimados durante outros dolorosos genocídios.

Neste texto, não nos propusemos redigir um manifesto de guerra contra o povo judeu, senão conscientizar os brasileiros e cristãos de boa fé sobre a real natureza das relações teológicas entre judeus e cristãos, políticas entre Israel e os cristãos e geopolíticas entre o Brasil e Israel. Não emitimos ao longo das três seções de nosso texto qualquer opinião própria sobre Israel e os judeus, senão a ortodoxia das Escrituras e da tradição cristã e os fatos concretos da história e da política. Não é nosso dever ditar o futuro da região geográfica da Palestina, mas apontar aos cristãos brasileiros um perigo atual de seu alinhamento ideológico e geopolítico. De fato, falando por nós mesmos, pareceria mais sadio na conjuntura contemporânea que se dividisse o Estado de Israel entre diversas regiões ou “corpus separatum” de administração internacional, como proposto pelas Nações Unidas em 1947 e, mais perfeitamente, pelo Império Britânico, em 1937, quando este propôs o “corpus separatum” de Jerusalém, Belém, Nazaré e do Mar da Galileia.
Para o nacionalista judaico Yoram Harzony, que publicou um excelente livro em 2018, traduzido no Brasil como “A virtude do Nacionalismo”, o “cerne do que está acontecendo à legitimidade de Israel” (p. 194) é que “os judeus continuam agindo como um Estado nacional independente, perseguindo seus interesses e aspirações de acordo com seu próprio entendimento” (p. 211). Ora, esperamos que esse desenvolvimento teórico, que acaba redundando, enfim, numa contestação à legitimidade de Israel, de um ponto de vista francamente cristão (a que Harzony parece, contudo, se demonstrar contrário, conforme sua maior ou menor proximidade à sua própria religião), sem o intermédio de qualquer teórico ou político “imperialista” (na terminologia do autor) e cujas únicas fontes de consulta são os fatos, não lhe pareça um ataque imperialista ao nacionalismo: são seus autores os legítimos “nacionalistas radicais” da defesa intrépida da nação e do Estado soberano do Brasil. Ou pode lhe ser isto muito agressivo, pois, ao contrário das outras nações-alvo de Harzony, não se concebe que haja qualquer Estado nacional soberano no Brasil — só mesmo um território que seja de pronto uso estratégico aos anglo-saxões…

Escrito por Ezequiel Possenti, dedicado à maior honra de Nosso Senhor Jesus Cristo. Contato por e-mail: ezequielpossenti@protonmail.com chave PGP disponível em https://pgp.mit.edu/pks/lookup?op=get&search=0xCE563C6BDD6969E6

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Referências para consulta
Note-se que as referências a fatos específicos estão elencadas segundo ordem alfabética dos veículos de mídia responsáveis (ou primeiro nome do autor em caso de livros), enquanto as referências a temas religiosos constam alfabeticamente em divisões por ordem de aparição. A lista de referências à questão moral precede a lista de referências à questão religiosa. Nosso artigo não possui qualquer pretensão acadêmica e foi dispensada a norma ABNT para referências.

Políticas de aborto:
Haaretz (22-05-2019). “Shhh! Don’t tell evangelical supporters of Israel, but abortion there is legal – and often it’s free”. https://www.haaretz.com/israel-news/.premium.MAGAZINE-shhh-don-t-tell-evangelical-supporters-of-israel-about-the-country-s-abortion-laws-1.7274968
Law Library of Congress (2012). “Israel: Reproduction and abortion: Law and policy”. https://web.archive.org/web/20171019061648/https://www.loc.gov/law/help/israel_2012-007460_IL_FINAL.pdf
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Direitos sexuais:
Israel Ministry of Foreign Affairs (19-07-2018). “Gay Israel”. https://mfa.gov.il/MFA/IsraelExperience/Pages/Gay_Israel.aspx
The Guardian (21-06-2007). “Jerusalem braced for gay parade clashes”. https://www.theguardian.com/world/2007/jun/21/gayrights.israel
The Independent (17-09-2008). “The five most improved places for gay tolerance”. https://www.independent.co.uk/life-style/love-sex/taboo-tolerance/the-five-most-improved-places-for-gay-tolerance-932635.html
TheJournal.ie (09-09-2018). “Homosexuality can still mean the death penalty in many countries”. https://www.thejournal.ie/same-sex-rights-across-the-world-4222149-Sep2018/
The Times of Israel (09-06-2017). “79% of Israelis back gay marriage or civil unions”. https://www.timesofisrael.com/poll-79-of-israelis-back-gay-marriage-or-civil-unions
Ynet (06-08-2007). “15,000 take part in Tel Aviv gay parade”. https://www.ynetnews.com/articles/0,7340,L-3410263,00.html

Ideologia de gênero, maconha e eutanásia:
Forbes (11-04-2019). “Israel descriminaliza o uso adulto da cannabis”. https://forbes.com.br/colunas/2019/04/israel-descriminaliza-o-uso-adulto-de-cannabis
Haaretz (28-08-2012). “The Gender Revolution Hits Israeli Schools”. https://www.haaretz.com/israeli-schools-discover-gender-studies-1.5292047
Haaretz (03-01-2017). “Israel to Finance Knowledge Center for Gender Equality”. https://www.haaretz.com/israel-news/.premium-israel-to-finance-knowledge-center-for-gender-equality-1.5481161
Library of Congress (29-01-2015). “Euthanasia under Israeli Law”. https://blogs.loc.gov/law/2015/01/euthanasia-under-israeli-law/
Folha de S. Paulo (07-12-2005). “Israel legaliza a eutanásia após seis anos de polêmica”. https://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u90258.shtml

Protestantismo:
Sobre Calvino e os judeus. Dr. John Edwards (1998). “The Jews in Christian Europe 1400-1700”. Routledge. p. 64 https://books.google.com.br/books?id=Z4QECwAAQBAJ&pg=PT64
Transcrição da tradução de Charles M. Jacobs aos prefácios de Lutero aos livros da Bíblia. http://www.godrules.net/library/luther/NEW1luther_f8.htm
Índice dos comentários de João Calvino às Escrituras, em inglês, pela Christian Classics Ethereal Library. https://ccel.org/ccel/calvin/calcom41/calcom41.vii.i.html
Página do e-book do primeiro volume das Obras de Jacó Armínio, em inglês, em que este fala sobre o nome Israel. “The Works Of Jacobus Arminius: Volume 1: Orations Of Arminius”. Devoted Publishing. p. 59 https://books.google.com.br/books?id=11KtDgAAQBAJ&pg=PA59#v=onepage&q&f=false
Joseph M. Canfield (1988). “The Incredible Scofield and His Book”. Ross House Books. Passim.
Maidhc Ó Cathail (10-2015). “The Scofield Bible—The Book That Made Zionists of America’s Evangelical Christians”. Washington Report On Middle East Affairs. https://www.wrmea.org/015-october/the-scofield-bible-the-book-that-made-zionists-of-americas-evangelical-christians.html
Cargos de James Untermyer no movimento sionista e judaico-americano. Israel Goldstein (1984). “My World as a Jew”, vol. 2. Cornwall Books. p. 201 https://books.google.com.br/books?id=mCU0XsXUDOYC&pg=PA201; Ronald H. Bayor (2019). “Neighbors in Conflict: The Irish, Germans, Jews, and Italians of New York”. John Hopkins University Press. p. 101 https://books.google.com.br/books?id=EhK9DwAAQBAJ&pg=PT101.
Ben Witherington III (2005). “The Problem with Evangelical Theology: Testing the Exegetical Foundations of Calvinism, Dispensationalism and Wesleyanism”. Baylor University Press. pp. 96-168

Catolicismo e Tradição cristã:
Daniel Marques Giandoso (2011). “O Diálogo com Trifão de São Justino mártir e a relação entre judeus e cristãos”. Universidade de São Paulo. https://teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8138/tde-19102011-163239/publico/2011_DanielMarquesGiandoso.pdf
Jewish-Christian Relations (30-04-2018). “Jerusalem: The Catholic Church and the Holy City”. http://www.jcrelations.net/Jerusalem__The_Catholic_Church_and_the_Holy_City.5985.0.html?
Samuel Goldman (2018). “God’s Country: Christian Zionism in America”. University of Pennsylvania Press. p. 136 https://books.google.com.br/books?id=HSVJDwAAQBAJ&pg=PA136
Leão XIII. “Libertas, praestantissimum”. Trad. Veritatis Splendor. https://www.veritatis.com.br/libertas-praestantissimum/

Perseguição aos cristãos:
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Arab News (26-12-2019). “Palestine government, Christians slam Israel for insufficient action on church attack”. https://www.arabnews.com/node/1604581/middle-east
IstoÉ (11-06-2019). “Israel confirma venda de prédios da Igreja para colonos judeus em Jerusalém”. https://istoe.com.br/israel-confirma-venda-de-predios-da-igreja-para-colonos-judeus-em-jerusalem
Latin Patriarchate of Jerusalem (28-11-2018). “Latin Patriarchate objects to appropriation of its land in northern Jordan valley by Israeli military authorities”. http://www.lpj.org/latin-patriarchate-objects-to-appropriation-of-its-land-in-northern-jordan-valley-by-israeli-authorities
Haaretz (01-08-2017). “Court Approves Sale of Three Strategic E. J’lem Buildings to Right-wing Jewish Group”. https://www.haaretz.com/court-approves-sale-of-three-e-j-lem-buildings-to-right-wing-jewish-group-1.5438587
Haaretz (06-09-2017). “Jerusalem Churches Warn of Israel’s ‘Systematic’ Erosion of Christian Presence in Holy Land”. https://www.haaretz.com/israel-news/.premium-jerusalem-churches-warn-israel-erasing-christian-presence-1.5448294
Haaretz (26-02-2018). “Major Church Leaders Opt to Keep Jerusalem’s Church of the Holy Sepulchre Closed Indefinitely”. https://www.haaretz.com/israel-news/.premium-church-of-the-holy-sepulchre-to-remain-closed-indefinitely-1.5850069
Haaretz (27-02-2018). “Church of Holy Sepulchre Crisis: Israel Burns Its Bridges With the Christian World”. https://www.haaretz.com/middle-east-news/.premium-church-of-holy-sepulchre-crisis-israel-burns-its-bridges-with-the-christian-world-1.5848160
Haaretz (23-01-2019). “After Criticism, Israel Lets Gazans Celebrate Easter in Jerusalem, West Bank”. https://www.haaretz.com/israel-news/.premium-after-criticism-israel-lets-gazans-celebrate-easter-in-jerusalem-west-bank-1.7160189
Los Angeles Times (23-12-2019). “Bethlehem is ready for Christmas. But one group of Christians may be kept from the holy site”. https://www.latimes.com/world-nation/story/2019-12-23/christians-may-be-up-against-a-travel-ban
Los Angeles Times (24-12-2019). “Bethlehem celebrates Christmas — and Israel allows some Gaza Christians to attend”. https://www.latimes.com/world-nation/story/2019-12-24/bethlehem-celebrates-christmas-and-israel-allows-some-gaza-christians-to-attend
Mark A. Lamport (2018). “Encyclopedia of the Christianity in the Global South”, vol. 2. Rowman & Littlefield. p. 405 https://books.google.com.br/books?id=B6xVDwAAQBAJ&pg=PA405
Middle East Monitor (28-11-2018). “Israel expropriates almost 70 acres of Catholic Church property”. https://www.middleeastmonitor.com/20181128-israel-expropriates-almost-70-acres-of-catholic-church-property/
Middle East Monitor (24-12-2019). “Palestine Archbishop Atallah Hanna: Israel attempted to poison me”. https://www.middleeastmonitor.com/20191224-palestine-archbishop-atallah-hanna-israel-attempted-to-poison-me/
Middle East Monitor (31-12-2019). “Who is Archbishop Atallah Hanna, and why does Israel hate him?”. https://www.middleeastmonitor.com/20191231-who-is-archbishop-atallah-hanna-and-why-israel-hates-him/
Ronald Runge (2008). “Alias, Iraq”. iUniverse. p. 105 et seq. https://books.google.com.br/books?id=weEDMsBF0sIC&pg=PA105
The Tablet (21-03-2016). “Israel is preventing Christians from worshipping freely in the Holy Land during Easter”. https://www.thetablet.co.uk/news/5311/israel-is-preventing-christians-from-worshipping-freely-in-the-holy-land-during-easter

Cristãos no Oriente Médio:
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ACIDigital, s/d. “Radicais muçulmanos não querem liberdade nem democracia na Síria, adverte Bispo”. https://www.acidigital.com/noticias/radicais-muculmanos-nao-querem-liberdade-nem-democracia-na-siria-adverte-bispo-29748
Asian News (18-11-2015). “Patriarch Younan: IS cannot be defeated with air raids, the West has betrayed Christians”. http://www.asianews.it/news-en/Patriarch-Younan:-IS-cannot-be-defeated-with-air-raids,-the-West-has-betrayed-Christians-35909.html
Catholic Herald (20-04-2017). “Why do Christians in Syria back Assad?”. https://catholicherald.co.uk/magazine/127889/
CBN (05-05-2019). “Iran’s Intelligence Minister Admits Christianity is Spreading in ‘Parts’ of His Country”. https://www1.cbn.com/cbnnews/cwn/2019/may/irans-intelligence-minister-admits-christianity-is-spreading-in-parts-of-his-country
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Exame (16-03-2016). “Assad não é o ‘demônio’ que acreditam, diz bispo de Aleppo”. https://exame.abril.com.br/mundo/assad-nao-e-o-demonio-que-acreditam-diz-bispo-de-aleppo/
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Planos Yinon e Clean Break:
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Wahhabismo:
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Stephen Schwartz (2003). “The Two Faces of Islam: Saudi Fundamentalism and Its Role in Terrorism”. Anchor Books. Passim.
Terence Ward (2018). “The Wahhabi Code: How The Saudis Spread Extremism Globally”. Arcade Publishing. Passim.

Israel e o terrorismo:
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The Progressive (07-02-2015). “Saudi Funding of 9/11 Attacks Still Cloaked in Secrecy”. https://progressive.org/op-eds/saudi-funding-9-11-attacks-still-cloaked-secrecy/
Foreign Policy (06-09-2018). “Inside Israel’s Secret Program to Back Syrian Rebels”. https://foreignpolicy.com/2018/09/06/in-secret-program-israel-armed-and-funded-rebel-groups-in-southern-syria/
Independent (25-04-2017). “Isis fighters ‘attacked Israel Defense Forces unit, then apologised’ claims former commander”. https://www.dailymail.co.uk/news/article-4456130/ISIS-fighters-APOLOGISED-attack-Israeli-soldiers.html
The Times of Israel (21-08-2013). “Syria says it captured Israeli weapons from rebels”. https://www.timesofisrael.com/syria-says-it-captured-israeli-weapons-from-rebels/
The Times of Israel (14-01-2019). “IDF chief finally acknowledges that Israel supplied weapons to Syrian rebels”. https://www.timesofisrael.com/idf-chief-acknowledges-long-claimed-weapons-supply-to-syrian-rebels/
The Wall Street Journal (12-03-2015). “Al Qaeda a Lesser Evil? Syria War Pulls U.S., Israel Apart”. https://www.wsj.com/articles/al-qaeda-a-lesser-evil-syria-war-pulls-u-s-israel-apart-1426169708
U.S. Senate Select Committee on Intelligence and U.S. House Permanent Select Committee on Intelligence (12-2002). “Joint Inquiry into Intelligence Community Activities Before and After the Terrorist Attacks of September 11, 2001”. pp. 7-21 https://assets.documentcloud.org/documents/2994059/Sept-11-28-Pages.pdf

O Brasil e o Oriente Médio:
Carlos Alexandre Considera (2015). “Política Internacional II: Relações do Brasil com os países emergentes e o diálogo com os países desenvolvidos”. Saraiva: Coleção Diplomata. pp. 63-64 https://books.google.com.br/books?id=ED5nDwAAQBAJ&pg=PT63
Colbert C. Head; John Thomas Cummings (2014). “Middle East Patterns: Places, People, and Politics”. p. 287 https://books.google.com.br/books?id=vcxVDgAAQBAJ&pg=PT287
Época Negócios (30-03-2019). “A aproximação entre Bolsonaro e Israel pode afetar o mercado bilionário de carne hahal no Brasil?”. https://epocanegocios.globo.com/Economia/noticia/2019/03/aproximacao-entre-bolsonaro-e-israel-pode-afetar-o-mercado-bilionario-de-carne-halal-no-brasil.html
Guga Chacra, s/d. “O Brasil na Guerra dos Seis Dias”. O Globo. https://oglobo.globo.com/mundo/brasil-na-guerra-dos-seis-dias-21480554
John Mearsheimer; Stephen Walt (23-03-2006). “O Lobby de Israel”. Trad. Otacilio Nunes Jr. Novos estudos CEBRAP. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-33002006000300003
Jus Navigandi (11-2015). “Resolução 242 da ONU: posição brasileira sobre o caso palestino”. https://jus.com.br/artigos/44719/resolucao-242-da-onu-posicao-brasileira-sobre-o-caso-palestino#_ftn30
Lucas Baqueiro (09-12-2019). “O homem que sabia javanês”. Revista Amálgama. https://www.revistaamalgama.com.br/12/2019/o-homem-que-sabia-javanes/
Norma Breda dos Santos. “Brasil e Oriente Médio nas Nações Unidas: equidistância, pragmatismo e realismo”. In: Helena Lewin (2009). “Identidade e cidadania: como se expressa o judaísmo brasileiro”. Centro Edelstein de Pesquisas Sociais. pp. 760-761 https://books.google.com.br/books?id=nMmfCQAAQBAJ&pg=PT389

Outras fontes:
Declaração de Olavo de Carvalho sobre os liberais e os conservadores. Olavo de Carvalho (08-03-2007). “Por que não sou liberal”. http://olavodecarvalho.org/por-que-nao-sou-liberal/
Escrito de Theodor Herzl em seu diário sobre a área compreendida pela “Grande Israel”. Theodor Herzl (1960). “The Complete Diaries of Theodor Herzl”. The Theodor Herzl Foundation, Inc. p. 711 https://archive.org/stream/TheCompleteDiariesOfTheodorHerzl_201606/TheCompleteDiariesOfTheodorHerzlEngVolume2_OCR#page/n145
Padre Mário da Silva sobre a relação entre cristãos e muçulmanos em Gaza, onde é o único padre católico. VEJA (05-09-2018). “De São Paulo para Gaza: o padre dos muçulmanos”. https://veja.abril.com.br/mundo/de-sao-paulo-para-gaza-o-padre-dos-muculmanos/

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