Ontem, dia 15, completou-se um ano do incêndio na Catedral de Notre-Dame de Paris. Assistimos cair partes da obra magnânima arquitetônica que foram vistas intactas por variadas pessoas importantes, inclusive São Tomás de Aquino. Não sei exatamente, mas apostaria que São Tomás de Aquino e outros homens de sua época, quando viam a Catedral, contemplavam aquilo como uma Igreja deve ser contemplada: como um templo erguido dedicado à adoração ao bom Deus, como uma peça importante para a reunião dos cristãos para, juntos — como a expressão “Corpo de Cristo” propõe –, contemplarem o sacrifício inefável de Nosso Senhor; mas não como as pessoas da atualidade a exergam: como uma figura estática, meramente simbólica, de uma época passada, de uma época geralmente descrita como desprezível.

Não podemos prescindir o caráter simbólico do incêndio. Já tinham tentado destruir a Catedral uma vez, na Revolução Francesa, na mesma revolução que promoveu um verdadeiro ódio à Cristandade, de cujos efeitos agora estão, infelizmente, muito bem consolidados. Se a Catedral tivesse consciência própria, não seria devaneio dizer que ela se incendiou da mesma forma que aquele monge budista ateou fogo em si mesmo como forma de protesto. Ser, na consciência das pessoas, reduzido de um templo dedicado a Deus, para um templo dedicado a manter um turismo lucrativo para o Estado, é, de fato, uma humilhação que mereceria tal protesto. Ou, melhor, da mesma forma que um frade franciscano passa fome como penitência, a Catedral teria se incendiado para mostrar às pessoas que só a viam como uma figura estática, que essa figura que as pessoas vêem não vale nada.

A Catedral, assim como todas as Igrejas, é depositária do Corpo de Cristo. Por isso que quando um católico passa por uma Igreja, este faz o sinal da Cruz. O ponto crucial de tudo isso é que as pessoas, doutrinadas a ser apenas um motor sensível que somente reage a sensações, conceberam Notre-Dame como se fosse uma figura de uma idade exótica que chamam de Média, mas a Catedral não faz parte de idade alguma, pois toda a sua estrutura (óbvio que não falo da física) está erguida na Eternidade.

Em Notre-Dame, como em outras Igrejas antigas, a pia batismal situa-se à sua frente, diante da porta. Ora, sendo, através do batismo, a pessoa admitida como filha adotiva de Deus e estando, portanto, inserida no Corpo de Cristo (a Igreja), a pia posicionada na entrada simboliza não só a entrada da Igreja como templo, mas da Igreja etérea como Corpo de Cristo. Um amigo contou que, certa vez, um conhecido dele foi à Notre-Dame e parou diante da pia batismal. Ora, como um bom católico, este molhou seus dedos na água benta e se benzeu diante do Altar e, neste momento, havia algumas pessoas perto dele, que o olharam com desprezo e estranheza. Isto reflete como a população moderna anda anestesiada para tudo que seja verdadeiramente louvável, e mostra como as pessoas tornaram-se praticamente mortas, simples seres que respondem a sensações — de espírito atrofiado e de alma decadente. Se estas pessoas não conseguem exergar Deus nesses momentos em que sua presença é tão óbvia, como seriam capazes de apreciar certas sutilezas que para os cristãos servem de lembrança ao divino?

Mesmo que se conjecture o que teria causado o fogo, independente de quem seja o culpado, o fato já foi consolidado. Terrível é, sem sombra de dúvida, ver chamas devorando um templo de Deus, ainda mais um templo com tanto valor histórico. Mas, de fato, todos que são batizados têm seu corpo transformado em templo do Espírito Santo. Ora, quantas pessoas não estão deixando seu próprio templo se incendiar? Quantos não estão, de forma tão crítica, inertes num materialismo de tal forma cego que são incapazes de enxergar a presença mais óbvia do Divino?

Oremos e vigiemos, pois são tempos sombrios os que vivemos. A única luz que esse tempo nos traz é a luz de um incêndio iconoclasto e blasfemo. Só a eternidade possui a luz capaz de dissipar a fumaça efêmera que encobre nossa época.

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