A notícia do fim da transmissão de Chaves no Brasil foi, além de surpreendente, uma das tantas coisas péssimas deste ano. Sou um grande fã do seriado mexicano, assim como muitos brasileiros. Talvez o fato de Chaves ter tanto sucesso no Brasil seja um tema que requeira um texto próprio. Só que neste texto farei uma reflexão traçando um paralelo entre dois dos irreverentes personagens do seriado: Dona Florinda e o Senhor Barriga.

O Roberto Gomes Bolaños foi genial, por ter feito uma caricatura em que se equilibrava a realidade e o humor, mostrando como a vida simples numa vila, de algum rincão pacato, pode ser interessante o suficiente para cativar várias gerações. Creio que esse é o papel fundamental de qualquer humorista: mostrar que, mesmo que alguns se esforcem para ser sérios, tudo deste mundo é risível e desconcertante. Por isso que não considero certas figuras deploráveis que abundam no Brasil como humoristas, que se dizem, mas que não o são, pois, ao invés de mostrar como tudo que quer ser sério é uma piada, quer, usando uma piada ruim, mostrar que tudo é sério.

Pois bem, voltando à reflexão sobre Dona Florinda e o Senhor Barriga: vejo que nestes dois personagens encontramos dois pontos de se gozar a riqueza diferentes; a primeira não é rica, mas alardeia a todos que é, e ainda usa esse pretexto falso para menosprezar seus semelhantes; já o segundo, embora seja rico, demonstra absoluta empatia por todos, inclusive para aquele que vive lhe enganando [o Seu Madruga].

Dona Florinda é o típico estereótipo de uma burguesa. Finge ter muito dinheiro, esbanja o que tem para promover a seu filho uma vida sem dificuldade alguma, dando-lhe tudo que pede, transformando-o num consumista hedonista. Além do mais, vive uma espécie de vida dupla, pois ao mesmo tempo que frequenta festas da alta sociedade (os famigerados festejos da família Pires Cavalcante), é uma viúva que sobrevive da pensão de seu falecido esposo (que descansa em pança – amém) e que passa por tantos apertos que teve de montar um negócio de churros com o Seu Madruga, a maior vítima de seu desdenho. Aliás, já que mencionei o desprezo dela para com o pai da Chiquinha, vale ressaltar essa característica de sua burguesia: reduzir as pessoas aos seus aspectos materiais e econômicos, pois, como muitos burgueses que tem por aí, Dona Florinda detesta tudo que lhe lembra um pobre.

A burguesia, ao contrário do que os chamados esquerdistas dizem, é um espírito, não uma capacidade econômica. É uma forma de ver a vida, de agir, de se inter-relacionar e de não se autoconhecer. É caracterizada por uma visão materialista e cínica. É o espírito podre. E para provar meu ponto falarei do Senhor Barriga, que é rico, mas é generoso e não demonstra ser burguês.

Eis que é dia de cobrar os aluguéis dos inquilinos. O homem pançudo desce de sua brasília e perpassa pelo portão da vila. Vem com seu terno, com sua maleta e com um sorriso no rosto, mas é atingido por uma pancada – sabe-se lá como, ou por que – pelo Chaves. Recompõe-se do baque e vai em direção ao Seu Madruga, aquele que mais lhe deve e que menos lhe paga. Seu Madruga tenta fugir, mas não consegue e, por não ter dinheiro, oferece algum serviço em troca do preço do aluguel; Seu Barriga aceita, mesmo duvidando do trabalho do velhaco. Houve um episódio em que o “velho pançudo” aceitou um tecido de camurça (made in Taubaté), em troca de alguns meses de aluguel. As crianças da vila usaram o pano como toalha de piquenique e o mancharam completamente. Ainda no referido episódio, quando o “almôndega com patas” estava para ir embora e teve de buscar o tecido, deparou-se com o pano completamente devastado. A verdade é que em nenhum momento ele quis aquele precioso artefato (made in Taubaté), ora, ele mesmo sabia que tratava-se de um péssimo material, mas levou-o consigo, mesmo sujo, pois aquilo, embora não tivesse valor monetário, era a única coisa que o inquilino rude podia dar-lhe como pagamento – e isso bastava.

Num certo episódio, num momento de fúria, o Senhor Barriga ameaça que expulsará o Seu Madruga de sua casa, caso ele não lhe pague o aluguel. Mas depois de muito refletir, inventou uma mentira que o Seu Madruga, como tinha sido boxeador, protagonizou uma luta na qual, coincidentemente, estava valendo uma aposta do Senhor Barriga, que estava num momento de aperto e o dinheiro que conseguisse da disputa lhe tiraria da cilada, então, veja só, supostamente graças ao Seu Madruga, o velho barrigudo não se deu mal por completo. O Professor Girafales percebeu a mentira e perguntou por que ele tinha inventado aquilo, ao que lhe foi respondido mais ou menos assim: “se esse povo sair daqui, onde irão morar?”.

O Senhor Barriga não se preocupou em levar todos para a sua casa, quando precisou reformar a vila. Pagou tudo para as crianças poderem praticar um esporte, o de futebol americano, para não ficarem na ociosidade maligna das ruas. Pagou o Chaves para lavar o seu carro, sabendo que o próprio moleque o tinha sujado de propósito. Pagou por toda a barraca de refrescos do garoto e, ainda, o levou a Acapulco e arcou com todas as suas despesas. Enfim, são muitos os exemplos em que o “Barriga de paletó” protagonizou e que nos servem para mostrar que, embora ele seja rico, não é um burguês.

Mas a genialidade do Bolaños não para por aí. Chesperito mostrou-nos muito bem como a moral cristã é o antídoto perfeito para o veneno burguês. Pois é nos dias de Santo que Dona Florinda mais se mostrou sensível. São nesses episódios em que a “velha carcomida” não só não agride o Seu Madruga, como demonstra bastante cordialidade com ele e com seus vizinhos, chegando a convidá-los para jantar em sua casa – em que deixa de chamá-los de “gentalha”, para chama-los de “semelhantes”.

Talvez esse seja o fim do Chaves na televisão brasileira. Espero que não. Mas é notável que, de uns tempos para cá, tentaram de todas as formas censurar o chavinho, por supostamente ser machista, homofóbico, ou qualquer outro termo igualmente vazio e estúpido. Esta geração atual não merece Chaves. Não merece o humor sadio e inspirador do seriado mexicano. É uma geração que a cada dia que passa se afunda na burguesia, na mesquinhez, no cinismo. Pois onde a “porta dos fundos” abre, o portão da vila se fecha.

Só um bom humor pode nos livrar da depressão mórbida destes tempos.

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